SÃO PAULO — A instalação “O Barco”, da artista portuguesa Grada Kilomba, entrou em cartaz no Sesc Pompeia nesta terça-feira (22). Com entrada gratuita, a obra permanece no Espaço Galpão até 25 de outubro e aborda as marcas do tráfico transatlântico de africanos escravizados.
A estrutura foi desenvolvida a partir de pesquisas em botânica, história e travessias transatlânticas. Com 134 blocos de madeira queimada, a obra ocupa uma área de 220 metros quadrados e tem 32 metros de comprimento. A disposição das peças forma a silhueta do fundo de uma embarcação e remete à arquitetura dos porões dos navios negreiros, usados para transportar milhões de pessoas africanas para o trabalho forçado.
Kilomba afirmou que a instalação questiona a narrativa de glória associada aos barcos presentes em monumentos da Europa e da América Latina. A artista também propõe uma reflexão sobre o que permanece no fundo do oceano e sobre a repetição de violências relacionadas à escravização, ao colonialismo, às guerras, às mudanças climáticas e às migrações forçadas.
Entre os elementos da obra estão 18 blocos centrais com poemas gravados em dourado. Escritos por Kilomba, os textos foram traduzidos para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria. Um dos trechos diz: “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”.
A instalação precisou ser adaptada porque é maior que o galpão do Sesc Pompeia. Parte dela fica invisível no espaço, em uma escolha que reforça a ideia de uma presença incompleta e dialoga com a história dos barcos que não chegavam inteiros aos destinos.
“O Barco” já passou por Lisboa, Londres e pelo Instituto Inhotim, em Minas Gerais, onde ficou por 28 meses. Em São Paulo, a obra integra uma mostra com “Opera to a Black Venus” e “Compressed Time”.








