O Banco do Japão (BoJ) avalia elevar os juros para conter os riscos de inflação, mas enfrenta um mercado que aposta em uma taxa terminal mais alta do que se previa. A divergência ocorre enquanto os rendimentos dos títulos públicos de longo prazo sobem no Japão, pressionados por fatores internos e externos.
Os títulos de referência de 10 anos recém-emitidos tiveram rendimento acima de 3% novamente na terça-feira. O nível permanece elevado desde que essa marca foi atingida pela primeira vez em 30 anos, em 1º de setembro.
O que está em jogo
Juros longos mais altos aumentam o custo de financiamento do governo japonês e também encarecem os empréstimos imobiliários com taxas fixas para as famílias. Embora o BoJ controle diretamente a taxa de empréstimo interbancário de curtíssimo prazo, essa taxa tem forte ligação com os juros de longo prazo.
As taxas mais longas são influenciadas pelas expectativas para os juros futuros de curto prazo e pelo prêmio de prazo, que é o rendimento adicional exigido pelos investidores para manter títulos de vencimento mais longo. Esse prêmio pode aumentar diante de preocupações com as finanças públicas, a inflação e outros riscos.
Autoridades do BoJ defendem que a elevação dos juros pode reduzir os temores sobre a inflação futura e, assim, conter o prêmio de prazo. No mercado, porém, cresce a avaliação de que o ciclo de aperto monetário terminará com uma taxa mais alta, o que tem impulsionado os rendimentos de médio e longo prazo desde meados de agosto.
A taxa de um ano para entrega em dois anos no mercado de overnight index swap, usada como indicador das expectativas para a taxa terminal, tem sido negociada em torno de 2,4%. A expectativa é de que o BoJ acelere o aperto monetário e leve a taxa básica a 1,25% na reunião desta quinta e sexta-feira. Os investidores também projetam cerca de quatro aumentos adicionais de 0,25 ponto percentual depois desse movimento.
Uma autoridade do BoJ afirmou que mais participantes passaram a considerar uma taxa terminal superior à prevista anteriormente. Outra autoridade disse que as expectativas de alta dos juros podem pressionar os rendimentos dos títulos de 10 anos tanto para cima quanto para baixo.
Pressões externas e política fiscal
O prêmio de prazo também recebe influência de fatores fora do alcance da política monetária japonesa. A intensificação dos confrontos militares entre os Estados Unidos e o Irã levou os contratos futuros de petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI) acima de US$ 100 o barril pela primeira vez em três meses e meio. Nos Estados Unidos, os rendimentos dos títulos de longo prazo também superaram brevemente 5% na segunda-feira.
No Japão, medidas do governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, incluindo uma proposta de redução do imposto sobre consumo de alimentos, aumentaram as preocupações com as finanças públicas e deram força adicional aos juros longos.
O BoJ encerrou o controle da curva de rendimentos em março de 2024, quando deixou de direcionar os juros de longo prazo para níveis próximos de 0%. A instituição agora reduz sua carteira de títulos públicos, acumulada durante o período de juros ultrabaixos, e defende que as taxas longas sejam determinadas pelo mercado.
Se os rendimentos continuarem subindo sem controle, podem aumentar as preocupações com a economia e as finanças públicas. Nesse cenário, Takaichi poderia adotar uma posição mais cautelosa sobre novas altas de juros, enquanto o BoJ também poderia sofrer pressão para ampliar as compras de títulos públicos.
Para Keisuke Tsuruta, estrategista sênior de renda fixa da Mitsubishi UFJ Morgan Stanley Securities, uma comunicação clara sobre a continuidade das altas poderia enfraquecer a pressão de alta dos juros longos. O desafio do banco central é preservar a confiança do mercado ao explicar sua estratégia.







