O romance A Centopeia de Neon, de Edival Lourenço, termina com uma imagem de movimento: depois de atravessar sombras, eclipses e violências, a centopeia deixa o chão e voa. A cena resume a transformação proposta pelo livro, que não apresenta o apocalipse apenas como destruição, mas como revelação do que permanecia escondido e possibilidade de um novo começo.
A leitura é apresentada por Everaldo Correia de Lima Júnior, que identifica na obra uma arquitetura formada por diferentes tradições. Cristianismo, mitologia greco-romana, música, imprensa, narcotráfico, cultura popular, ficção científica, sexualidade e experiência autobiográfica aparecem reorganizados em uma mesma narrativa. O romance transforma esses elementos em partes de um organismo que só revela sua forma quando observado em conjunto.
Quatro chaves para a leitura
O prólogo apresenta quatro citações que funcionam como entradas para os capítulos e para as trajetórias dos personagens. A primeira vem de Tácito: “omne ignotum pro magnifico”. A ideia de que o desconhecido pode ser tomado como magnífico aparece associada à assimilação de hábitos romanos pelos britânicos. O domínio, nesse caso, torna-se mais sofisticado quando o dominado passa a desejar os sinais culturais do dominador.
A segunda referência é de Thiago de Mello e fala de girassóis capazes de se abrir dentro da sombra. O símbolo não elimina a escuridão: indica a resistência da vida em um ambiente no qual a luz está impedida. A citação também desloca a discussão sobre autoridade, violência e instituições para os efeitos produzidos sobre o indivíduo e a linguagem quando uma sociedade normaliza o poder.
As outras duas citações vêm da Bíblia. Em Ezequiel 1:4-5, surgem seres com quatro asas e quatro faces, associados aos querubins. No romance, essa imagem é aproximada dos quatro cavaleiros do apocalipse, figuras ligadas a desastres e castigos. Já Gênesis 1:20 apresenta criaturas rastejantes. A referência ajuda a formar o campo simbólico da centopeia, um artrópode que se movimenta junto ao chão.
Poder, violência e desejo
Sidrake de Thorteval Gahy, o Sinistro, representa uma forma moderna de conquista. Seu poder circula por dinheiro, influência, relações institucionais e negócios, sem depender diretamente do campo de batalha. A trajetória familiar reforça essa dimensão: o pai morre acreditando ser Napoleão, enquanto o filho converte a fantasia imperial em capacidade prática de manipulação.
O sargento Danton Mumbeka se aproxima do cavaleiro do cavalo vermelho, associado à retirada da paz. Ele atua como mordomo, motorista, guarda-costas, confidente e comandante de operações especiais. Sua violência tem origem no aparelho repressivo e depois passa a servir a interesses econômicos. Ao mesmo tempo, o personagem vive sob a lógica de Tântalo: deseja o luxo, aproxima-se do poder, mas não consegue possuir aquilo que busca.
Jerônimo Joaquim dos Santos Neto, o Jeromão, é relacionado ao cavaleiro do cavalo preto e à balança. Sua história é marcada por erros de interpretação. Ele acredita que traficantes pertencem aos Beatles, confunde uma música da banda Marmalade com uma composição do grupo britânico e acaba preso ao transportar cocaína escondida em um violão. A imprensa ainda o identifica como Ramon Herrera. Mais tarde, a acusação inicialmente equivocada se torna realidade quando ele entra no tráfico.
A trajetória do personagem desloca a economia da terra que produz alimento para a economia baseada em peso, medida, quantidade, preço e distribuição de drogas. A fome permanece, mas muda de forma: passa a envolver dinheiro, sexo, prestígio, pertencimento e entorpecentes.
Romã e a luz depois do eclipse
A quarta figura apocalíptica se distribui principalmente entre Romã da Silva Nardini e Rodolfo Távora Ionesto. Romã está cercada pela morte, mas não é responsável por ela. Rodolfo, por outro lado, usa interesses econômicos e mecanismos institucionais para produzir uma situação de conflito em torno de uma propriedade de vinte mil alqueires. A violência aparece revestida de ordem e legalidade.
Depois de perder familiares, carreira e reputação, Romã passa a ser considerada louca. Sua experiência, porém, aproxima delírio e revelação. O romance deixa em aberto a separação entre aquilo que ela imagina e aquilo que os demais personagens não conseguem enxergar. Chelo, descrito a partir de um regionalismo do estado do Tocantins, surge como uma presença ambígua entre o grotesco e o divino. Ele afirma ter caído dos céus e participa da anunciação do Anunciado Miscigênito.
É nesse momento que aparece a imagem central do livro: naves geminadas, de brilho azul-fluorescente, formam “uma incrível centopeia de neon”. A figura não representa uma transformação literal em inseto. Ela nasce da reunião de partes distintas que, vistas em conjunto, passam a compor um único organismo.
A centopeia também retoma a memória de letras percebidas como “formigas no papel”. O movimento rastejante, associado ao chão e ao grotesco, ganha outra direção no desfecho: a criatura voa. O que parecia preso à terra se torna luminoso e aéreo; o que era estranho passa a funcionar como veículo de revelação.
Um fim que aponta para outro começo
A imagem do girassol percorre o romance como uma poética de resistência. Romã se pergunta se seria “um girassol vivendo o seu noturno”, enquanto o eclipse indica que a fonte de luz continua existindo, embora algo se coloque entre ela e o mundo. No final, a personagem declara: “Não havia mais eclipses: nem o da lua nem o meu”.
A revelação, contudo, não encerra a violência. Danton ainda segue Romã, e a ameaça de uma “Operação Herodes” mantém o perigo associado ao nascimento do Miscigênito. O romance não oferece uma solução simples: o poder continua ativo, enquanto os personagens carregam as marcas das relações de dominação, desejo e destruição.
A ordem temporal também é reorganizada. Criação, apocalipse, anunciação, Herodes e nascimento futuro coexistem em uma estrutura circular. As quatro estações de Vivaldi antecipam esse movimento: depois do inverno, outra primavera pode surgir.
Assim, A Centopeia de Neon trata o apocalipse como retirada de véus. A obra mistura seus materiais, expõe as violências escondidas na ordem social e preserva a possibilidade de recomeço. A frase final esperada por Romã não anuncia apenas o nascimento de uma criança, mas “toda a História em recomeço”.







