A comunicação política não se resume à escolha entre Instagram, TikTok e YouTube. Para o historiador Jones Manoel, um dos problemas da esquerda brasileira está na dificuldade de construir uma mensagem capaz de dialogar com os jovens e apresentar uma perspectiva convincente para o futuro.
O desafio aparece quando estruturas partidárias tentam reproduzir comportamentos associados à juventude sem permitir que ela participe da formulação das mensagens. Dancinhas, gírias e vídeos informais não compensam uma linguagem artificial. Jones Manoel classificou esse tipo de esforço como “cringe”.
O que está em disputa
A política digital envolve atenção, identificação e a capacidade de tornar assuntos complexos compreensíveis, compartilháveis e repetidos. Nesse ambiente, a direita ganhou espaço ao usar narrativa, velocidade, conflito e repetição para definir os temas do dia.
Nikolas Ferreira é citado como exemplo de eficiência na construção de audiência e na mobilização de seguidores. O reconhecimento dessa capacidade de comunicação não implica concordância com o conteúdo de suas mensagens, mas aponta para uma diferença na forma de disputar a atenção pública.
A esquerda, por outro lado, pode confundir uma mensagem politicamente correta com uma comunicação eficiente. Uma informação verdadeira não produz efeito político se não for compreendida ou se não despertar interesse. Da mesma forma, uma política pública bem formulada pode não ser associada aos seus beneficiários quando seus resultados não são comunicados de forma clara.
Do passado para a vida cotidiana
Conquistas como direitos trabalhistas, programas sociais, expansão das universidades e redução da pobreza continuam sendo apresentadas como parte da identidade progressista. O problema é tratar a lembrança dessas políticas como suficiente para convencer pessoas de 20, 25 ou 30 anos que enfrentam aluguel, comida cara, dívida no cartão, dificuldade para comprar uma casa e insegurança sobre a formação de patrimônio.
A baixa taxa de desemprego também não encerra essa discussão. Quem trabalha 10 ou 12 horas por dia em uma atividade precária pode continuar sem perspectiva de ascensão. Ter uma ocupação, nesse caso, não equivale a construir um projeto de vida sustentável.
Por isso, a comunicação precisa conectar temas amplos a experiências concretas. Inteligência artificial deve aparecer junto do debate sobre emprego; universidade, ao lado de renda; democracia, relacionada à segurança; direitos, associados a patrimônio; meio ambiente, ligado ao custo de vida; e igualdade, acompanhada da discussão sobre mobilidade social.
Uma linguagem própria
A saída não seria copiar a direita. A esquerda precisaria desenvolver sua própria forma de falar, com participação real dos jovens na construção das mensagens e menos linguagem partidária. Também teria de responder às expectativas de uma geração que cresceu associando estudo à estabilidade e encontrou um mercado marcado por precarização e insegurança.
O problema, portanto, ultrapassa as eleições. Um campo político pode governar, apresentar indicadores econômicos e defender conquistas históricas, mas ainda perder a disputa sobre o que acontecerá amanhã. Nas redes, a proposta que prevalece nem sempre é a melhor formulada; muitas vezes, é a que parece possível.
A avaliação atribuída a Jones Manoel é que a esquerda precisa deixar de se limitar à defesa do passado ou à crítica do adversário. Para continuar disputando o governo do Brasil, terá de oferecer uma visão de futuro sem artificialidade, mantendo seus princípios e falando sobre as preocupações concretas da população.







