Um estudo elaborado por economistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Getulio Vargas (FGV) concluiu que a primeira edição do Desenrola Brasil reduziu a inadimplência por um período limitado, sem alcançar de forma significativa os grupos mais vulneráveis. A análise também identificou sinais de maior exposição ao risco entre instituições financeiras que emprestam para clientes com maior probabilidade de calote.
Lançado em julho de 2023 e encerrado pouco menos de um ano depois, o programa renegociou R$ 52,42 bilhões em dívidas e alcançou 14,93 milhões de pessoas, conforme estatísticas do governo federal. Na faixa 1, voltada a pessoas com renda de até dois salários mínimos ou inscritas no CadÚnico, estavam 4,93 milhões de beneficiários. O grupo representava um terço do total, mas concentrou quase metade do valor renegociado, com R$ 24,91 bilhões.
O desconto médio foi de 83%, enquanto o uso do Garantia de Operações (FGO) chegou a US$ 1,7 bilhão. A faixa 1 recebeu cobertura do fundo, criado para garantir parte das operações renegociadas.
Inadimplência caiu, mas voltou a subir
Os pesquisadores usaram dados do Sistema de Informações de Créditos (SCR) entre janeiro de 2023 e agosto de 2025. Foram construídos mais de 300 mil painéis mensais de operações, organizados por Estado, segmento bancário, ocupação e renda do tomador.
A amostra reuniu principalmente dívidas de cartão de crédito rotativo, com 26,8%, empréstimos pessoais, com 32,4%, e crédito consignado, com 22,4%. Na comparação com grupos semelhantes, fora da faixa 1 e com renda entre dois e três salários mínimos, a inadimplência diminuiu cerca de 14 pontos percentuais nas dívidas com até 15 dias de atraso. Nos débitos com até 90 dias de atraso, a redução foi de 17 pontos percentuais.
O cartão de crédito registrou o maior alívio. Para atrasos de até 15 dias, o efeito foi duas vezes superior ao observado nos empréstimos pessoais. Apesar disso, a melhora não se sustentou: depois de 18 meses, os índices de inadimplência retornaram aos patamares anteriores ao programa.
A maior parte da redução foi registrada entre trabalhadores com carteira assinada. Para os informais, o efeito foi menor e não apresentou significância estatística. Rodrigo Leite, professor de finanças e controle gerencial do Coppead/UFRJ, afirmou que a instabilidade da renda ajuda a explicar a duração mais curta do alívio entre esses trabalhadores.
“Enquanto o trabalhador com carteira tem fluxo estável de renda, o informal usa o crédito para suavizar oscilações mês a mês”, disse Leite.
Bancos menores e risco moral
De acordo com o estudo, os bancos de porte médio e pequeno, classificados nos segmentos prudenciais S3 e S4, foram os que mais se beneficiaram. A queda da inadimplência no segmento S4 foi mais que o dobro da observada no S3, sugerindo concentração relevante das renegociações em instituições com perfil de risco mais agressivo.
Após o programa, também houve aumento da provisão para devedores duvidosos, especialmente entre as instituições menores. Para Leite, a expectativa de renegociações garantidas pelo governo pode ter estimulado a concessão de empréstimos a esse público.
Os pesquisadores classificam esse mecanismo como risco moral: bancos e tomadores podem assumir mais compromissos financeiros esperando condições melhores em futuras renegociações. O custo, na avaliação do economista, é distribuído pela sociedade por meio dos recursos públicos usados na garantia e dos benefícios tributários associados a determinadas modalidades do programa.
Leite também demonstrou preocupação com o Desenrola 2, principalmente pela extensão a trabalhadores MEI. Segundo ele, a medida pode abrir outro canal de crédito para pessoas físicas e permitir que recursos destinados a empresas sejam usados para finalidades não produtivas.
Para reduzir os efeitos adversos, o professor defende que o governo deixe claro que não haverá novas intervenções desse tipo, permitindo uma desaceleração gradual das operações de maior risco. Ele também afirmou que programas de transferência direta têm retornos melhores do que políticas de crédito, porque não aumentam o endividamento nem alteram a relação das pessoas com os bancos.







