Poços de Caldas, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A próxima viagem começa aqui
Livro sobre mestiçagem provoca ataques e reacende debate sobre racismo no Brasil
Brasil

Livro sobre mestiçagem provoca ataques e reacende debate sobre racismo no Brasil

Obra organizada por Mary del Priore e Gian Melo reúne ensaios e defende o estudo da mestiçagem sem negar a violência e o racismo.

O lançamento de História das Mestiçagens no Brasil, organizado pelos historiadores Mary del Priore e Gian Melo, provocou ataques nas redes sociais e reacendeu a discussão sobre o lugar da mestiçagem nas pesquisas acadêmicas. A obra reúne 17 ensaios e tem 567 páginas.

Mary del Priore pediu proteção à Unesp durante a sessão de autógrafos na 28ª Bienal Internacional do Livro, encerrada no dia 13 deste mês. A universidade contratou seguranças para acompanhá-la. A Fundação Editora Unesp condenou, em nota, qualquer tentativa de silenciamento e manifestou solidariedade à historiadora.

Ataques e silêncio acadêmico

As mensagens dirigidas aos autores afirmavam que o livro não deveria ter sido publicado, que a mestiçagem não poderia mais ser objeto de pesquisa e que os pesquisadores estariam protegidos pelo chamado pacto de branquitude. Um dos professores responsáveis por ensaios da obra também recebeu insultos homofóbicos. Outro colega classificou o livro como uma negação do racismo.

Mary del Priore afirmou que grupos de poder dentro das universidades tentam controlar ideologicamente os temas que podem ser pesquisados e debatidos. Ela também criticou o silêncio institucional diante dos ataques: “É gravíssimo — grupos de poder dentro das universidades querem controlar ideologicamente o que pode ser pesquisado e discutido.”

Um professor de universidade federal, que preferiu não se identificar, avaliou que a dificuldade de aceitar argumentos divergentes prejudica o combate ao racismo. Para ele, o contraditório e o dissenso são necessários à discussão acadêmica.

A historiadora diz que o desconforto em torno do livro está ligado à interpretação de que a mestiçagem brasileira não resultou apenas da violência sexual praticada por senhores contra mulheres escravizadas. A pesquisa também aborda encontros entre pessoas pobres de origens diversas e a formação de famílias plurais, relacionadas à ascensão social e à libertação de filhos nascidos no cativeiro.

O que defendem os organizadores

Na apresentação, Mary del Priore e Gian Melo afirmam que compreender as raízes múltiplas do Brasil é necessário em meio aos debates sobre negritude, branquitude e pardismo. Segundo os organizadores, a obra não celebra o branqueamento nem coloca o mestiço acima da população preta.

Mary del Priore destaca que documentos do primeiro censo do Império, em 1872, já registravam o pardo como maioria da população brasileira. Gian Melo, professor da Universidade Federal de Alagoas, afirma que o livro não pretende recriar o mito da democracia racial.

O historiador diferencia a ideologia da mestiçagem — uma política de Estado voltada ao embranquecimento da população — da mestiçagem como fenômeno popular, ligado à formação cultural do país. Ele ressalta que a obra não nega a violência nem o racismo e que não pretende recuperar uma ideologia cujas consequências permanecem presentes.

Para Gian Melo, a mestiçagem envolve mais do que a reprodução sexual. Ela também aparece na alimentação, na música, na religiosidade e nos modos de falar. Por isso, o autor considera difícil separar completamente o que seria europeu, africano ou indígena na cultura brasileira.

A experiência do pardismo

A discussão também aparece na história de quem se identifica como pardo. Em Porangatu, no Norte de Goiás, um homem ouviu pela primeira vez a palavra moreno quando estudava na Escola Gercina Borges Teixeira. A família reunia um pai branco, descendente de sírio-libaneses, uma mãe parda e uma bisavó materna negra, Frutuoza Martins da Cunha, chamada de Tuosa.

Na infância, os cinco irmãos eram vistos como pardos ou morenos, embora os cabelos louros de alguns fizessem com que fossem considerados brancos em determinadas situações. Já adulto, ao responder ao Censo do IBGE, ele se identificou como pardo e rejeitou a classificação como branco.

A experiência descrita também inclui episódios na Europa, em 2010. Em Barcelona, na Espanha, e em Lisboa, atendentes perguntaram se ele era árabe. Ao responder que era brasileiro, percebeu alívio nos interlocutores. Para ele, renunciar à identidade parda significaria também renunciar à memória de Tuosa. Por isso, afirma apoiar as cotas e se alinhar às lutas da população preta.

O relato mostra como a identidade parda pode ocupar uma posição de silêncio nos debates sobre raça. A publicação do livro, ao reunir diferentes interpretações históricas, recoloca em discussão as relações entre mestiçagem, racismo, violência e cultura no Brasil.

Texto produzido pela Redação Trilha de Viagem com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

NewsletterCinco leituras por manhã.

Mais lidos

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5