Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump devem apresentar visões opostas sobre a ordem internacional durante os discursos na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22). Lula falará primeiro, seguido pelo presidente americano, em um momento marcado por eleições nos dois países, tensões diplomáticas e críticas ao funcionamento do sistema multilateral.
A expectativa é que os discursos também tenham relação, direta ou indireta, com as disputas eleitorais. No Brasil, a eleição presidencial será em 4 de outubro, a menos de duas semanas da participação dos líderes na ONU. Pesquisas indicam empate entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Nos Estados Unidos, as urnas serão abertas em novembro, e a avaliação é que o partido de Trump provavelmente perderá o controle da Câmara e talvez do Senado.
Eleições e política externa
Para Lucas de Souza Martins, professor de política americana e relações internacionais na Universidade Temple, a tribuna deverá servir para que os dois presidentes abordem as eleições. Bruna Santos, diretora do Brazil Program no Inter-American Dialogue, avalia que será praticamente impossível separar o discurso de Lula da comunicação política doméstica, ainda que o tema principal seja política externa.
A previsão é que Lula defenda a soberania brasileira e a democracia, além de criticar interferências externas na eleição sem citar nominalmente autoridades ou países. Entre os possíveis alvos indiretos estão o unilateralismo, as sanções, o protecionismo e tentativas de interferência política associadas aos Estados Unidos.
O presidente brasileiro também antecipou que pretende falar sobre o mundo. Economia global, guerras, representatividade no Conselho de Segurança e a falta de liderança para tomar decisões estão entre os assuntos mencionados por ele.
Trump, por outro lado, pode retomar críticas a organizações internacionais e apresentar seu legado como agente da paz. Martins não espera mudanças significativas em relação ao discurso do ano passado. O presidente americano também poderá destacar a cooperação com governos latino-americanos no combate ao narcotráfico, sem incluir o Brasil.
Relação entre Brasil e Estados Unidos
O contraste entre os dois governos aparece ainda na forma como cada um enxerga a cooperação internacional. Benjamin Gedan, pesquisador sênior e diretor do programa para a América Latina do Stimson Center, afirma que Lula é um defensor histórico da cooperação, enquanto Trump considera a ONU um desperdício de dinheiro e mantém ressentimento relacionado à decisão da organização de não contratar sua empresa para uma reforma décadas atrás.
Os líderes tiveram uma aproximação breve em 2025, quando se encontraram no corredor entre os discursos e Trump afirmou ter tido uma excelente química com Lula. Um novo encontro nos bastidores ainda poderia produzir reaproximação, apesar das tarifas e da tensão diplomática.
Os governos mantêm o diálogo sobre as barreiras impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, mas interlocutores do Palácio do Planalto não esperam resultados no curto prazo. São duas tarifas: uma de 25% e outra de 12,5%. A avaliação é que Washington evitará concessões que possam ser apresentadas como uma vitória de Lula antes da eleição.
O Brasil abre o debate da Assembleia Geral desde 1955. Esta será a décima vez que Lula subirá à tribuna como presidente. Para interlocutores brasileiros, a percepção de retrocesso global em paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos deve aparecer nos discursos, embora Brasil e Estados Unidos apresentem causas e soluções diferentes.
Se Lula vencer, interlocutores esperam uma postura pragmática de Trump, mas consideram que a relação com os Estados Unidos será o maior desafio da política externa brasileira a partir de 2027.






