Poços de Caldas, Quinta-feira, 24 de setembro de 2026
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Quando a perda derruba o mundo que imaginávamos
Brasil

Quando a perda derruba o mundo que imaginávamos

A dor pode nascer não apenas da ausência, mas do fim da realidade que organizava desejos, identidade e planos de futuro.

A frase atribuída a Jacques Lacan — “O que mais dói não é a perda. É a ruptura da fantasia” — resume uma ideia central da psicanálise lacaniana: certas perdas desorganizam não apenas pela ausência de alguém ou de algo, mas porque derrubam o cenário imaginário que dava sentido à vida.

Quando uma pessoa morre, pode desaparecer também o futuro imaginado ao lado dela. No fim de um relacionamento, além do outro, pode ruir a imagem de quem éramos naquela relação. Um projeto fracassado, por sua vez, pode interromper a narrativa que explicava nossa identidade e indicava uma direção.

A fantasia como moldura da realidade

Na leitura apresentada, a fantasia não é apenas uma mentira criada para enganar a própria mente. Ela participa da organização do desejo e oferece uma moldura para a realidade. Por meio dela, construímos respostas provisórias sobre quem somos, o que queremos e o que esperamos dos outros.

Enquanto essa estrutura funciona, sua presença quase não é percebida. O sofrimento aparece com maior intensidade quando ela cai. A pessoa continua sendo a mesma no documento, no espelho, na profissão e na família, mas pode deixar de se reconhecer. A vida segue externamente, enquanto algo perde sua função no interior.

Sigmund Freud ajuda a compreender o luto como um processo que não se resolve apenas pela aceitação racional. A realidade informa que alguém morreu, mas a vida psíquica pode continuar, por algum tempo, comportando-se como se a presença ainda pudesse ser recuperada. Jacques Lacan desloca a pergunta: além de “o que perdi?”, surge “o que acontece comigo agora que aquilo que sustentava meu desejo deixou de existir?”.

Carl Jung contribui para essa reflexão ao mostrar como projetamos no outro imagens que também pertencem a nós. Já Platão ajuda a pensar o desejo como algo ligado à falta, enquanto Epicteto distingue o acontecimento da representação que construímos sobre ele. A dor permanece real, mas pode ganhar uma camada adicional formada pela narrativa criada depois do fato.

A perda e o sentido da existência

A reflexão também se aproxima da filosofia ao perguntar como o ser humano busca significado quando as estruturas habituais deixam de funcionar. Profissão, família, patrimônio, prestígio, projetos, relações, crenças, hábitos e expectativas organizam o cotidiano e produzem uma aparência de continuidade.

Quando ocorre uma ruptura, aquilo que parecia natural passa a ser questionado. A pergunta deixa de ser apenas como continuar e pode se transformar em: para que continuar? A razão consegue organizar compromissos, administrar bens, procurar outro emprego ou iniciar uma relação. Ainda assim, não responde sozinha o que torna novamente desejável a própria existência.

Essa experiência aparece na trajetória de Joan Didion. Em dezembro de 2003, seu marido, o escritor John Gregory Dunne, morreu subitamente de um ataque cardíaco. Pouco antes, o casal havia visitado a filha, Quintana, que estava gravemente enferma. Em O Ano do Pensamento Mágico, Didion escreveu sobre a morte do marido e sobre o esforço de continuar vivendo depois que a configuração conhecida do mundo deixou de existir.

O pensamento mágico, nessa interpretação, expressa a resistência da mente à realidade consumada. A razão sabe que alguém morreu, mas uma parte da pessoa continua organizando o mundo como se o retorno ainda fosse possível. O luto envolve, assim, a perda do indivíduo e também de uma configuração formada por casamento, rotina, memórias, projetos e expectativa de futuro.

A ruptura da fantasia pode ser angustiante e desorientadora, mas também abre a possibilidade de distinguir aquilo que realmente desejávamos do que imaginávamos desejar. Algumas fantasias precisam ser abandonadas; outras precisam mudar de lugar. Elas podem ter sido necessárias em determinado período, sem que devam ser confundidas com a realidade.

Depois da queda, permanecem perguntas sobre identidade, desejo e continuidade: quem sou eu sem aquilo? O que desejo agora? O que permanece? A busca de sentido pode começar justamente quando as respostas anteriores deixam de funcionar. Reconstruir os meios de viver não basta; também é preciso perguntar pelo significado.

Abilio Wolney Aires Neto é apresentado como Juiz de Direito da 9ªVara de Goiânia, Professor e Escritor com 15 livros, além de integrante de academias e instituições literárias e históricas. O texto informa ainda que ferramentas de inteligência artificial foram usadas apenas como apoio à revisão, à organização da argumentação e à formatação, enquanto as ideias, fontes, análise e conclusões são atribuídas ao autor.

Texto produzido pela Redação Trilha de Viagem com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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