A filósofa Susan Neiman afirma que a esquerda precisa recuperar três princípios que, na avaliação dela, foram deixados de lado: o universalismo, a distinção entre poder e justiça e a possibilidade de progresso. Para a autora, esses fundamentos são incompatíveis com a transformação da política em uma disputa centrada apenas em identidades étnicas e de gênero.
Nascida em Atlanta, na Geórgia, nos Estados Unidos, Neiman participou de movimentos em defesa dos direitos humanos, da paz e da justiça. No livro “A Esquerda não é Woke”, publicado pela Âyiné, com 200 páginas e tradução de Rodrigo Coppe Caldeira, ela examina as bases do pensamento progressista e as ideias que, segundo sua análise, desviaram esse movimento de seus objetivos.
Uma crítica ao identitarismo
O termo woke, associado às ideias de acordar ou despertar, passou a designar uma corrente política voltada a pautas de grupos minoritários sujeitos à discriminação. Neiman reconhece que esses movimentos deram visibilidade a pessoas oprimidas, mas questiona a forma como a identidade passou a organizar parte dessas reivindicações.
Para a filósofa, o identitarismo reduz a experiência humana principalmente às dimensões étnica e de gênero. A etnia ou a cor, afirma, são interpretadas de maneiras diferentes conforme o país, a cultura e o lugar ocupado no mundo. Com isso, grupos marginalizados podem acabar concentrados em suas próprias identidades e em disputas específicas por poder, afastando-se de uma perspectiva social mais ampla.
A autora também analisa as ideias de Michel Foucault, escritor e filósofo francês, e de Carl Schmitt, filósofo alemão. Os dois, segundo Neiman, se aproximaram de pensadores progressistas por demonstrarem hostilidade ao liberalismo. Outro ponto em comum seria a distinção entre poder e justiça, conceitos que nem sempre aparecem claramente nas discussões filosóficas.
Reparação e a categoria de vítima
No debate sobre os afro-americanos, Neiman aborda a escravização no passado e as reivindicações de reparação pelo Estado para descendentes de escravizados. Ela não contesta a necessidade de reparação, mas questiona a criação da categoria dos vitimizados como uma condição prolongada, capaz de transformar uma marca negativa em forma de status.
A autora identifica processo semelhante na maneira como o sofrimento dos judeus passou a ser mobilizado. A Alemanha foi punida pelos sofrimentos impostos a esse povo desde a década de 1930 até o fim da Segunda Guerra Mundial, e os judeus foram reconhecidos como vítimas de um processo com finalidade de extermínio.
Neiman também critica a imposição de regras para o uso de determinadas expressões. Termos como decolonialismo, ressignificação e lugar de fala, segundo a análise apresentada no livro, passaram a aparecer com frequência em textos sociológicos e históricos.
História, monumentos e progresso
A reavaliação da história trouxe questionamentos sobre valores e sobre a visão eurocêntrica. Nesse contexto, monumentos foram derrubados em diferentes lugares do mundo. Em Goiânia, Goiás, existe um movimento para retirar o monumento ao Bandeirante, na confluência das avenidas Goiás e Anhanguera. Inaugurada em 1942, a obra representa Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, fundador de Vila Boa, antiga capital de Goiás.
A discussão também alcança o nome da Avenida Anhanguera e outras referências a Bartolomeu Bueno. Para Neiman, a sociedade foi construída por erros e acertos, e o tempo pode revelar que determinadas escolhas consideradas corretas estavam equivocadas.
Em sua síntese, a filósofa sustenta que a esquerda não deve abandonar a razão em favor de uma leitura da sociedade baseada exclusivamente no poder. “A insistência de que o poder é a única coisa que move a sociedade anda de mãos dadas com o desprezo pela razão”, afirma. A retomada do universalismo, da diferença entre poder e justiça e da possibilidade de progresso seria, para ela, o caminho de volta aos fundamentos humanísticos do pensamento progressista.







