Documentos apresentados à Justiça mostram que a LVMH assinou, em 2002, um acordo para comprar ações da Hermès pertencentes a Nicolas Puech, herdeiro da família fundadora da empresa. A negociação foi conduzida com Eric Freymond, gestor de patrimônio de Puech, que morreu no ano passado.
Puech afirma que foi lesado e que perdeu sua participação de 6% na Hermès. Com base nas cotações atuais, essa fatia valeria cerca de 10 bilhões de euros. No ano passado, ele entrou com uma ação na França e pediu 14 bilhões de euros, ou US$ 16 bilhões, em indenização de quem for considerado responsável pelo desaparecimento de sua fortuna.
A LVMH nega ter tentado adquirir as ações contra a vontade do herdeiro. Em documento apresentado à Justiça em junho, a empresa declarou: “O grupo nunca cogitou adquirir a participação de Nicolas Puech, muito menos contra a vontade dele”. A companhia também argumentou que, na época, pretendia convencer Puech a integrar um bloco de acionistas para exercer influência sobre a Hermès.
Acordo e pagamentos
O acordo foi assinado em 12 de novembro de 2002 por Pierre Godé, executivo da LVMH, e Freymond. Segundo o depoimento do advogado suíço Alexandre Montavon, o documento previa que a LVMH comprasse milhões de ações da Hermès de Puech e de outros herdeiros da família.
A negociação deveria começar depois da saída esperada de Jean-Louis Dumas, que comandava a Hermès havia muitos anos e se aposentou em 2006. Em documentos apresentados à Justiça suíça em 2017, a LVMH afirmou que o acordo acabou suspenso porque não foi possível confirmar se Freymond tinha autorização para agir em nome de Puech.
A empresa disse ainda que nunca pediu a Freymond que executasse o acordo e que o documento foi destruído no fim de 2010, ano em que revelou sua participação na Hermès. A LVMH também afirmou que, até 2002, havia acumulado uma fatia de 4,9% na empresa com a ajuda de Freymond.
Entre 2001 e 2009, a LVMH e a holding da família de Bernard Arnault pagaram pelo menos 20 milhões de euros em comissões e honorários à empresa de gestão patrimonial de Freymond. Em um processo encerrado em 2019, a LVMH concordou em pagar 10 milhões de euros ao gestor, que alegava não ter sido remunerado de forma justa pelos serviços prestados.
Nos documentos desse processo, a LVMH afirmou que os pagamentos buscavam preservar a relação com Freymond e impedir que ele facilitasse a transferência de ações da Hermès para concorrentes.
Investigação na França e na Suíça
A relação entre Freymond, Puech e a LVMH está no centro de uma investigação criminal francesa e da ação movida pelo herdeiro. O Ministério Público apura o desaparecimento das ações e tem como alvos o consultor financeiro, já falecido, e Montavon, advogado que orientou a LVMH durante a formação de sua participação na Hermès.
Em maio, promotores disseram que investigavam se Montavon “participou da apropriação indevida das ações da Hermès pertencentes a Nicolas Puech em benefício da LVMH”. Até o momento, não foram apresentadas acusações criminais contra o advogado.
Montavon declarou aos promotores que assessorou a LVMH no acordo de 2002. Ao mesmo tempo, trabalhava com Freymond e fazia parte do conselho de administração da empresa de gestão patrimonial do consultor. Um advogado de Montavon afirmou que ele negava qualquer irregularidade e que não sabia, na época, que a LVMH havia comprado ações pertencentes a Puech.
Freymond morreu após ser atingido por um trem na Suíça, em julho de 2025. Promotores locais de Berna concluíram que a morte foi suicídio. Antes de morrer, ele negou ter cometido irregularidades.
Participação da LVMH na Hermès
A disputa entre as duas empresas começou há 25 anos, quando a LVMH começou a formar secretamente uma posição na Hermès. Em outubro de 2010, Bernard Arnault revelou uma participação de 17% na rival. A LVMH chegou a acumular 23% da Hermès antes de concordar em vender essa participação em uma trégua firmada em 2014.
A LVMH reconheceu que trabalhou com Freymond para acumular ações da Hermès, mas afirmou que uma eventual compra dos papéis de Puech teria ocorrido sem intenção. A empresa nunca informou se adquiriu ações da Hermès pertencentes ao herdeiro.
Puech diz que só descobriu o desaparecimento de sua participação em 2022, depois de romper relações com Freymond. O caso continua em discussão nos tribunais de Paris, enquanto ainda não está esclarecido o destino das ações nem de eventual dinheiro pago por elas.







