O avanço da Inteligência Artificial se tornou um dos símbolos da tensão política nos Estados Unidos. Para Robert Reich, ex-secretário do Trabalho, a força mais poderosa da política norte-americana é a revolta contra um sistema percebido como manipulado contra o trabalhador comum.
A insatisfação aparece em várias frentes. Eleitores relatam não conseguir pagar assistência médica ou creche, enquanto os preços dos alimentos e da gasolina sobem e os mais ricos ampliam sua riqueza. Agricultores e pequenos empresários enfrentam tarifas e uma guerra comercial. Em pequenas cidades, moradores protestam contra a instalação de data centers. Também há oposição ao envolvimento dos Estados Unidos em guerras no exterior e preocupação com o retrocesso dos direitos das mulheres e do acesso ao aborto.
Renda, trabalho e representação
O cenário econômico é agravado pelo encolhimento dos sindicatos, pela redução do número de sindicalizados e pelo crescimento do trabalho parcial e precário. A concorrência chinesa também é apontada como fator associado à destruição de postos mais qualificados na indústria de transformação.
A renda das famílias de classe média cresce lentamente, enquanto aumentam as horas trabalhadas e diminui o tempo livre. A desigualdade maior não veio acompanhada da expectativa de mobilidade social entre as faixas mais baixas e mais altas de renda e riqueza.
Em entrevista à correspondente Rachel Leigang, Brian Leeland, eleitor democrata de 79 anos de Detroit, disse que não aguenta mais e demonstrou frustração com a cobertura da política pelos meios de comunicação dos Estados Unidos. A insatisfação, porém, não se limita a eleitores democratas.
Da democracia à concentração de poder
Joe Biden alertou para a formação de uma oligarquia marcada por riqueza, poder e influência. O ex-presidente também declarou preocupação com uma “tecno-oligarquia”. Para Yanis Varoufakis, ex-ministro grego, a democracia exige que os cidadãos participem diretamente das decisões e construam acordos sociais. Na avaliação dele, o mundo vive sob o comando de uma oligarquia financeira e midiática.
Peter Thiel apresentou a tecnologia como alternativa à política, capaz de mudar o mundo sem depender da persuasão ou da busca de consenso. Essa visão contrasta com a igualdade de condições destacada por Alexis de Tocqueville em Democracia na América, princípio que, para o pensador francês, influenciava as leis, os governantes e os hábitos da sociedade.
Um paralelo histórico
A crítica à concentração econômica também apareceu no governo de Franklin Delano Roosevelt. Em 1936, ele advertiu sobre o risco de uma oligarquia financeira controlar o governo e criar um novo despotismo amparado por sanções legais.
Ferdinand Pecora, conselheiro da Comissão do Senado que investigava banqueiros ligados à crise de 1929, começou pelo topo. Sua primeira testemunha foi Charles E. Mitchell, presidente e diretor executivo do National City Bank, hoje Citibank. Depois de ser pressionado por Pecora, Mitchell renunciou e fez um acordo para encerrar uma acusação criminal por sonegação fiscal, pagando uma multa de 1 milhão de dólares.
A política econômica de Roosevelt buscou fortalecer o indivíduo-cidadão diante do individualismo daqueles que haviam enriquecido nos ciclos anteriores de prosperidade. A proposta era evitar que o cidadão-trabalhador ficasse submetido às oscilações do mercado e da concorrência.
Na era Trump, a concentração de riqueza e influência tecnológica convive com a piora das condições materiais de parte da população. O conflito entre poder privado, participação política e igualdade econômica permanece no centro do debate sobre a democracia norte-americana.








