Redes varejistas estrangeiras vêm apresentando desempenho superior ao de grandes empresas nacionais durante a desaceleração do consumo no Brasil. A diferença aparece em alimentos, minimercados e materiais de construção, embora os grupos internacionais também enfrentem os efeitos do endividamento das famílias e da demanda mais moderada.
O comércio brasileiro cresceu 1,8% em volume de janeiro a julho, abaixo da alta de 2,4% registrada até março, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE. Nesse ambiente, fatores de gestão, acesso a recursos no exterior e exposição regional ajudaram a separar os resultados das empresas.
Alimentação: Carrefour supera Grupo Mateus
No varejo alimentar, o Carrefour teve queda de 0,1% nas vendas mesmas lojas entre janeiro e junho, enquanto o Grupo Mateus recuou 7,7%. A comparação considera unidades em operação há mais de 12 meses e exclui o efeito de novas inaugurações.
O lucro operacional do Carrefour no Brasil subiu 0,9% no período. Já o resultado do Mateus caiu 22,3%, para R$ 888,5 milhões. Em mensagem no balanço, Alexandre Bompard, CEO global do Carrefour, afirmou que planos de adaptação e iniciativas de redução de custos ajudaram a melhorar a rentabilidade e retomar o crescimento das vendas no segundo trimestre.
A rede brasileira tem forte presença no Norte e Nordeste, regiões onde o consumo recuou mais. A companhia também priorizou a lucratividade em vez da participação de mercado e interrompeu a venda no balcão de lojas de atacarejo, o que afetou a comparação com o mesmo período anterior.
A margem bruta do Grupo Mateus foi de 23,2% no primeiro semestre, alta de 0,1 ponto. A empresa atribuiu o desempenho a um cenário de consumo pressionado, ao endividamento das famílias e a mudanças no perfil da cesta de compras.
A Cencosud, grupo chileno que controla Giga Atacado, Prezunic e Perini, também teve queda menor nas vendas mesmas lojas que o Mateus em alguns períodos. Entre janeiro e março, o recuo foi de 1,4%; no segundo trimestre, chegou a 8%. No Mateus, as variações foram negativas em 7,3% e 8%, respectivamente.
Apesar disso, a receita semestral de todas as lojas da Cencosud caiu 18%, enquanto a do Mateus avançou 12,5%. O resultado brasileiro foi influenciado pela consolidação da rede Novo Atacarejo, comprada em 2025, pela abertura de 25 lojas nos últimos 12 meses e pelo avanço das vendas em atacado e eletroeletrônicos.
Oxxo cresce enquanto GPA enfrenta recuperação
Nos minimercados, a mexicana Oxxo também avançou mais que o negócio de proximidade do GPA, dono do Mini Extra e do Minuto Pão de Açúcar. A Oxxo cresceu 6,9% no primeiro trimestre e 11,6% no segundo. O GPA teve expansão de 0,3% de janeiro a março e queda de 2,3% entre abril e junho.
A Femsa assumiu 100% da operação local da Oxxo neste ano, depois que a Raízen, do Grupo Cosan, vendeu sua participação no Grupo Nós em fevereiro. O GPA, por sua vez, pediu recuperação extrajudicial em março, com dívidas de R$ 4,5 bilhões. O plano ainda não foi homologado pela Justiça.
A empresa afirmou que a recuperação extrajudicial provocou problemas de abastecimento, com impacto na receita. Também citou a priorização de canais mais rentáveis, o fim do projeto Aliados em 2026 e um ambiente de consumo pressionado.
Para Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, grupos internacionais conseguem oferecer às operações brasileiras acesso a dados, sistemas, gestão e linhas de recursos no exterior. Essa estrutura pode dar mais alternativas às empresas durante períodos de maior pressão.
Construção tem resultados diferentes
No varejo de materiais de construção, a Quero-Quero registrou queda de 2,5% nas vendas mesmas lojas entre janeiro e março e alta de 6,7% de abril a junho. A rede gaúcha tem cerca de 580 lojas no país, segundo Peter Furukawa, seu presidente.
A empresa ampliou as opções de pagamento à vista e a oferta para consumidores de maior renda, diante da redução do crédito para as faixas de renda mais baixas. Furukawa também afirmou que a companhia ajustou o sortimento e começou a observar resultados dessas medidas.
A francesa Leroy Merlin informou estabilidade nas vendas mesmas lojas no primeiro semestre, em relação a 2025. O setor de materiais de construção recuou 0,8% até junho, conforme o IBGE.
Ricardo Dinelli, CEO da Leroy Merlin no Brasil, disse que a empresa selecionou projetos e adiou investimentos. A rede não abriu lojas neste ano; a unidade mais recente foi inaugurada em Bauru (SP), em 2025. O grupo tem 53 lojas e trabalha com mais de 160 tipos de serviços.
A Leroy Merlin estima vendas anuais entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões. Dinelli afirmou ainda que 2025 foi um ano de vendas estáveis em relação a 2024 e que a empresa espera aumento da demanda com a chegada do El Nino e a elevação das temperaturas nos próximos meses.







