A sucessão no comando da Berkshire Hathaway ganhou um novo contorno com a saída de Warren Buffett da presidência do conselho de administração. A partir de agora, Howard Buffett, seu filho mais velho, será presidente não executivo do órgão, enquanto Greg Abel seguirá como presidente-executivo.
Warren Buffett, de 96 anos, não terá mais uma função de gestão na companhia que assumiu em 1965. Ele também não atuará como conselheiro regular de Abel, que passou a ocupar a principal posição executiva em janeiro. Em carta aos acionistas, Buffett afirmou que Abel superou suas expectativas “altíssimas”.
Um papel voltado à cultura
Howard Buffett, de 71 anos, está na Berkshire desde 1993, quando passou a atuar como diretor. Sua função será concentrada na preservação dos valores e da cultura da empresa, e não na condução das operações diárias. Para James Armstrong, presidente da Henry H. Armstrong Associates, em Pittsburgh, caberá a ele fiscalizar a companhia, limitar a burocracia, manter o foco no longo prazo e colocar os acionistas em primeiro lugar.
Howard já foi agricultor, xerife e integrante de conselhos de administração. Ele também é conhecido pelo trabalho beneficente, mas nunca liderou uma empresa de capital aberto. Ao descrever sua visão sobre a Berkshire, disse que a cultura envolve simplicidade, tratamento justo, respeito aos gestores e acionistas, além de honestidade.
A falta de experiência na gestão cotidiana é vista como uma lacuna por Cathy Seifert, analista da CFRA Research. Segundo ela, em outras dinastias familiares, os herdeiros costumam participar das operações antes de assumir posições de maior responsabilidade. O conselho da Berkshire, porém, reúne diretores com experiência administrativa que podem orientar Howard.
Abel mantém o modelo da Berkshire
Abel, de 64 anos, entrou na Berkshire em 2000, após a aquisição da antiga MidAmerican Energy, e chegou à equipe de liderança em 2018. Desde que se tornou presidente-executivo, seguiu em grande parte as estratégias adotadas por Warren Buffett.
A companhia tinha US$ 364,7 bilhões em caixa em 30 de junho, valor quase recorde. Esse montante dá a Abel espaço para comprar empresas e ações, recomprar papéis da própria Berkshire e, possivelmente, criar um dividendo. O conglomerado, sediado em Omaha, Nebraska, é avaliado em aproximadamente US$ 1,1 trilhão e reúne negócios como a ferrovia BNSF, a Geico e empresas de energia, indústria e varejo. Sua carteira de ações inclui American Express, Apple e Coca-Cola.
Warren Buffett ainda controla mais de 13% das ações da Berkshire e cerca de 30% do poder de voto. Essas participações caíram à medida que seus papéis foram distribuídos a fundos supervisionados por seus filhos.
Para Michael Withers, professor de administração da Universidade de Notre Dame, a mudança representa continuidade, mas o desafio será preservar o legado de Warren Buffett enquanto a companhia se adapta a um mercado diferente. Macrae Sykes, gestor de carteiras da Gabelli Funds, avaliou que a saída encerra a carreira corporativa de Warren, sem eliminar sua influência. Tom Russo, sócio da Gardner, Russo & Quinn, resumiu o momento: “Este é um território novo”.







