O Banco Central não identificou, até o momento, sinais de propagação relevante do choque dos preços do petróleo para a formação de preços e salários no Brasil. A avaliação consta do Relatório de Política Monetária, divulgado nesta quinta-feira, que analisou os efeitos diretos, indiretos e posteriores do aumento da energia.
Entre os impactos iniciais, o BC registrou mudanças importantes nos preços dos combustíveis e de derivados como a ureia, que subiu 50% entre fevereiro e abril. Parte desse movimento foi revertida depois, indicando que o repasse nas etapas iniciais da cadeia produtiva pode estar perto do fim. Ainda assim, a autoridade monetária apontou riscos de impacto na inflação no curto prazo, incluindo a retomada do conflito no Oriente Médio e a continuidade das desonerações do diesel e da gasolina no Brasil.
Preços e expectativas
Para avaliar os efeitos de segunda ordem, aqueles em que a inflação inicial influencia a formação de preços e salários, o Banco Central aplicou uma metodologia proposta pelo Banco da Inglaterra. Foram observados três conjuntos de indicadores: condições iniciais da economia, formação de preços e formação de salários.
A análise das condições econômicas apresentou sinais mistos. A economia opera com inflação próxima ou acima do teto da meta, baixa ociosidade e mercado de trabalho aquecido. Em sentido contrário, a política monetária está em território negativo e há expectativa de desaceleração, fatores que limitam a propagação do choque.
As buscas na internet por inflação, petróleo e gasolina também voltaram a níveis anteriores ao conflito sobre Ormuz. Para o BC, isso indica que o choque recente não foi acompanhado por aumento significativo da atenção das famílias à inflação, o que tende a restringir sua influência sobre as expectativas.
Os dados mais recentes da Pesquisa Firmus não apontaram aumento de preços acima da alta dos custos. Muitas empresas relataram dificuldade para repassar integralmente o impacto do petróleo e de seus derivados. Apenas 43% informaram aumento nos preços de venda, sinal de que parte do choque pode estar sendo absorvida pela redução das margens.
A inflação de serviços, especialmente nos itens do núcleo EX3, não apresentou piora relevante, embora continue em níveis altos. Como contraponto, as empresas participantes da Firmus elevaram as expectativas de inflação até 2028, movimento que pode favorecer a ocorrência de efeitos de segunda ordem.
Salários e riscos adiante
Indicadores da Pnad, do Caged e das negociações coletivas mostram repasse limitado do choque de energia para os salários. Os dados não indicam pressões inequívocas e apontam para desaceleração do ritmo dos reajustes nominais e reais.
O Banco Central, porém, recomenda cautela. Efeitos de segunda ordem podem levar tempo para aparecer, enquanto expectativas de inflação de consumidores e empresas, inflação corrente próxima do teto da meta, hiato do produto positivo e mercado de trabalho apertado continuam indicando riscos.
A autoridade monetária afirmou que os riscos de propagação não podem ser descartados. Por isso, além de acompanhar a evolução dos preços do petróleo e dos derivados, será necessário monitorar sinais de transmissão do choque para preços e salários.







