Bruno Henrique Mendes recorreu do arquivamento parcial de uma denúncia sobre mensagens homofóbicas compartilhadas em grupos de militares. O caso tramita nas esferas civil e militar, sob sigilo, e envolve episódios ocorridos durante o período em que ele serviu como cabo da Aeronáutica.
A investigação começou depois que uma foto de Bruno abraçado ao namorado, publicada em uma rede social, foi retirada do Instagram e compartilhada em conversas de WhatsApp. Segundo o denunciante, as imagens foram acompanhadas de comentários jocosos, termos pejorativos e ataques direcionados a ele e ao parceiro.
Recurso questiona decisão
Em setembro de 2025, Bruno recebeu um documento do Ministério Público Militar (MPM) comunicando o arquivamento parcial. O registro afirma que não seria possível comprovar que parte dos comentários foi dirigida diretamente à vítima ou que teve o objetivo de ofendê-la por sua orientação sexual.
A decisão também declarou que, embora ninguém pudesse usar fotografias alheias para chacotas, deboches e homofobia, quem publica imagens pessoais na internet se expõe ao risco de uso inadequado por terceiros.
A defesa de Bruno recorreu e apontou contradições no documento. O recurso sustenta que falas consideradas fora do contexto das fotografias ajudariam a demonstrar a legitimação das agressões. Também menciona violência institucional, falta de acolhimento e a minimização dos danos psicológicos relatados pelo ex-cabo.
Outro ponto questionado foi o uso da expressão “opção sexual” em documentos relacionados ao caso. Para Bruno, a terminologia comprometeu a credibilidade do procedimento.
Denúncia e investigação militar
Bruno serviu por oito anos na corporação, contratado por concurso temporário, e deu baixa em março de 2025. Ele afirma que os episódios se intensificaram em 2024, depois da formatura de um curso interno para a Polícia da Aeronáutica.
Na ocasião, familiares e o namorado foram ao quartel. Bruno afirma que não houve demonstração explícita de afeto, mas apenas um abraço registrado em fotografia. Mais tarde, um colega o procurou e mostrou capturas de tela das conversas. As mensagens apareciam identificadas em parte como “Encaminhada com frequência”.
O colega teria dito que não concordava com o que estava acontecendo. Depois de conversar com amigos e com o chefe da seção onde trabalhava, Bruno foi orientado a denunciar o caso.
A acusação passou por diferentes instâncias. Primeiro, ele procurou o Ministério Público, mas foi informado de que deveria registrar um boletim de ocorrência em uma delegacia da Polícia Civil. Ao tentar fazer o registro, recebeu a orientação de buscar o Ministério Público Militar, apesar da presença de civis entre os envolvidos.
Bruno então formalizou a acusação por meio de ofício à própria Aeronáutica. O procedimento resultou na abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM), que reuniu nomes de militares da ativa e de pessoas já dispensadas do serviço.
Atendimento psicológico e audiência
O denunciante afirma que a situação afetou sua rotina e o levou a buscar atendimento psicológico por conta própria, após não conseguir ajuda dentro da Aeronáutica. Ele também relata que a convivência com os envolvidos se tornou difícil e que evitou reagir para não dar margem a consequências contra si.
“Eu tenho orgulho da minha sexualidade. Mas parecia que tudo o que eu construí lá dentro era resumido só a isso”, declarou Bruno.
Após a baixa, ele afirma que não recebeu retorno sobre o caso. Segundo ele, apenas uma diretriz sobre como agir em situações de assédio foi enviada, sem que alguém da instituição o procurasse.
Em abril de 2026, Bruno foi intimado a participar de uma audiência com três dos acusados. Depois da sessão, a defesa informou que dois dos indiciados haviam oferecido um acordo. Bruno disse que não aceitou e que só consideraria uma proposta nos termos definidos por ele.
A Aeronáutica informou que não comenta investigações e processos judiciais em andamento. O Superior Tribunal Militar (STM) declarou haver cinco ocorrências: quatro relacionadas a processos de 2025 e uma registrada no início de 2026.







