GOIÂNIA — A Catedral Metropolitana de Goiânia foi construída perto da Praça Cívica, mas com a fachada voltada para o lado oposto ao centro do poder estadual. A tradição local atribui essa orientação a uma decisão política de Dom Emanuel Gomes de Oliveira contra Pedro Ludovico Teixeira. Os documentos, porém, ainda não comprovam quem determinou a posição ou a direção definitiva do templo.
A história começa antes da construção da Catedral. Gercina Borges, mulher de Pedro Ludovico, era devota de Nossa Senhora Auxiliadora e defendia que a nova capital ficasse sob a proteção da santa. Em 24 de maio de 1935, uma missa celebrada sob uma árvore do Cerrado marcou essa intenção. Gercina foi paraninfa da cerimônia, conduzida por Abel Ribeiro Camelo, e Dom Emanuel acolheu a escolha.
A imagem preservada no sobrado da Rua 26, onde viveram Pedro Ludovico e Gercina, pode ter relação com os primeiros cultos da cidade, mas essa ligação não foi estabelecida pela documentação localizada. A imagem venerada atualmente na Catedral tem outra origem: veio de São Paulo nos anos 1940, emprestada pela Igreja do Bom Retiro, e permaneceu em Goiânia.
Igreja, capital e disputas políticas
A relação entre Pedro Ludovico e Dom Emanuel foi marcada por divergências. O arcebispo defendia a região de Bonfim, atual Silvânia, para a nova capital, enquanto a escolha recaiu sobre Campinas. Ele também não compareceu à primeira missa no território da futura Goiânia nem à cerimônia de lançamento da pedra fundamental, em 24 de outubro de 1933.
Apesar dos atritos, governo e Igreja precisavam estabelecer uma relação. A aproximação passou por Gercina. No plano urbanístico de Armando de Godoy, de 1936, o Setor Sul receberia um centro religioso, com a Catedral na área que se tornaria a Praça do Cruzeiro. Em 5 de julho de 1942, durante o Batismo Cultural de Goiânia, foi lançada ali a pedra fundamental do templo.
Dom Emanuel avaliou que o Setor Sul estava distante das áreas em crescimento e decidiu construir uma Catedral provisória perto da Praça Cívica. A primeira Matriz foi criada oficialmente em 22 de dezembro de 1937 e recebeu a bênção dois dias depois. Gercina presidiu a comissão organizadora dos festejos.
A configuração mudou após a eleição de 1947. Dom Emanuel apoiou Jerônimo Coimbra Bueno contra José Ludovico de Almeida, ligado ao grupo de Pedro Ludovico. Em 18 de maio de 1947, o arcebispo criou a comissão responsável por arrecadar recursos para a obra e escolheu Ambrosina Coimbra Bueno, mulher do governador, para presidi-la.
O que os documentos mostram
A Catedral foi projetada pelo padre-arquiteto salesiano Paulo Consolini. A construção começou em 1947, avançou lentamente e permaneceu inacabada após a morte de Dom Emanuel, em 1955. O templo foi inaugurado em 1956, e a sagração definitiva ocorreu em 1966.
A narrativa histórica utilizada pela própria Catedral registra que Dom Emanuel queria colocar a igreja na ponta da quadra, voltada para a Rua 20, para preservar os lotes da Rua 19. Jerônimo Coimbra Bueno discordou e o convenceu a instalar o edifício no centro da quadra, dando mais destaque à construção.
Essa interferência de Jerônimo na implantação é documentada. Não há, contudo, ata, carta, planta anotada ou depoimento contemporâneo que atribua a ele, a Dom Emanuel ou a Consolini a decisão de orientar a igreja de costas para a Praça Cívica como afronta a Pedro Ludovico.
Por isso, a posição da Catedral pode ser relacionada a uma sucessão de disputas: a divergência entre Pedro e Dom Emanuel, o confronto político entre Pedro e Jerônimo, a relação entre Igreja e Estado e as mudanças no projeto urbano de Goiânia. A hipótese de uma decisão deliberada existe, mas ainda não há prova definitiva.
A Catedral também passou por reformas e mudanças ao longo do tempo. A restauração mais recente foi concluída em 2026. Sua orientação continua alimentando uma pergunta histórica: foi resultado de uma escolha política específica ou da soma de decisões tomadas durante a formação da cidade? Os documentos disponíveis ainda não permitem responder.







