A construção de Brasília começou muito antes da chegada de Juscelino Kubitschek ao poder. Mapas, expedições, estudos científicos, disputas territoriais e articulações políticas já haviam preparado o caminho para a nova capital no interior do Brasil.
Essa história é recuperada pela arquiteta e pesquisadora Lenora de Castro Barbo na exposição “Brasília: o alicerce goiano de um sonho brasileiro”, instalada no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. A mostra reúne mapas de expedições, propriedades, alternativas para o Distrito Federal, do concurso do Plano Piloto e do quadrilátero que definiu a área da futura capital.
O território antes da capital
Lenora pesquisou mais de cem relatos de viajantes e sistematizou dezesseis personagens que atravessaram ou registraram a área incorporada posteriormente ao Distrito Federal. Os documentos descrevem rios, caminhos, relevos, povoações, propriedades e serras.
A pesquisadora também voltou ao século XVIII. Goiás foi separado administrativamente da capitania de São Paulo em 1748, e em 1750 surgiu o primeiro mapa da nova capitania. A pesquisa atribui o traçado a Ângelo dos Santos Cardoso, e não a Tosi Colombina, como costuma ser repetido.
A ideia de transferir a capital para o interior atravessou o Império e a República. Em 1891, a Constituição determinou a reserva de uma área no Planalto Central para a futura capital federal. No ano seguinte, a Missão Cruls, chefiada por Luiz Cruls, mediu altitude, rios, clima, coordenadas, solo e condições naturais da região. O trabalho resultou no quadrilátero que orientou as discussões posteriores.
Em 1922, foi lançada em Planaltina, então território goiano, a pedra fundamental da futura capital. Décadas depois, o mapa topográfico entregue aos concorrentes do concurso de 1957 para o Plano Piloto já mostrava o traçado do futuro Lago Paranoá, associado na exposição a Auguste Glaziou.
Goiás na definição de Brasília
A localização da nova capital também foi influenciada por questões de segurança nacional durante a Segunda Guerra Mundial. A Expedição Roncador-Xingu, iniciada em 1943, estava ligada ao reconhecimento e à ocupação do interior. Acary de Passos de Oliveira teve papel importante na condução terrestre da operação, que contou com visitas de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra à base instalada em Aragarças.
Goiás ainda precisou disputar a localização com Minas Gerais, especialmente com o Triângulo Mineiro. A definição do território goiano ocorreu em 15 de abril de 1955, quando a comissão presidida por José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque escolheu o Sítio Castanho, com base nos estudos do Relatório Belcher.
A partir daí, foi necessário levantar propriedades, examinar títulos, avaliar benfeitorias e negociar a transferência das terras. O governo de Goiás criou a Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, presidida por Altamiro de Moura Pacheco. A Planta Índice Cadastral de Altamiro Pacheco e Joffre Parada, de 1958, registra casas, fazendas, estradas e divisas existentes na área.
Emival Ramos Caiado atuou no Congresso Nacional nas medidas relacionadas à mudança da capital. Fontes do Senado atribuem a ele a iniciativa legislativa que fixou a transferência da Capital Federal para 21 de abril de 1960. Ele também presidiu o Bloco Parlamentar Mudancista e participou da legislação da Novacap.
Antes da posse de JK, em 31 de janeiro de 1956, o sítio já havia sido escolhido, os estudos estavam disponíveis e o processo fundiário avançava. Em novembro de 1955, Jerônimo Coimbra Bueno aprovou Cr$ 120 milhões no orçamento de 1956 para a implantação da nova capital. Em 30 de dezembro, Juca Ludovico e Altamiro formalizaram a operação das terras no Palácio das Esmeraldas.
A cidade construída
Juscelino Kubitschek transformou uma aspiração nacional em cidade. Em 1957, Lúcio Costa venceu o concurso do Plano Piloto. Oscar Niemeyer projetou os edifícios monumentais, enquanto Joaquim Cardozo cuidou dos cálculos estruturais. Israel Pinheiro comandou a máquina executiva da Novacap, responsável por coordenar materiais, máquinas, estradas, contratos, mão de obra e prazos.
Bernardo Sayão esteve ligado à abertura dos eixos de integração, entre eles a Belém-Brasília. Ele morreu em 1959, atingido por uma árvore durante os trabalhos da rodovia. Mauro Borges aparece na exposição como parte da conexão entre Brasília e Goiás, envolvendo estradas, abastecimento, administração, logística e articulação política.
Milhares de trabalhadores, vindos de Goiás, Minas, do Nordeste e de outras partes do Brasil, ergueram a cidade em menos de mil dias. A inauguração ocorreu em 21 de abril de 1960, mas a história territorial de Brasília havia sido construída ao longo de quase dois séculos.
A pesquisa de Lenora também se relaciona à memória de seu pai, Manuel Demósthenes Barbo de Siqueira, engenheiro ligado à cartografia e a instituições de Goiás. Foi entre mapas vistos na infância e documentos reunidos na vida adulta que ela reconstruiu a presença goiana anterior à capital federal.







