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Catedral de Goiânia reúne devoção, alianças e uma dúvida sobre sua orientação
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Catedral de Goiânia reúne devoção, alianças e uma dúvida sobre sua orientação

Documentos comprovam a influência de Jerônimo Coimbra Bueno na implantação do templo, mas não explicam por que a fachada ficou voltada para longe da Praça Cívica.

A Catedral Metropolitana de Goiânia foi inaugurada em 1956, mas sua sagração definitiva só ocorreu em 1966. A construção atravessou mudanças políticas, dificuldades financeiras e a morte de Dom Emanuel Gomes de Oliveira, em 1955. Ainda assim, os documentos não comprovam quem determinou que o templo ficasse de costas para a Praça Cívica.

A participação de Jerônimo Coimbra Bueno na implantação da igreja é registrada. Ele teria discordado da proposta de colocar o edifício na ponta da quadra, voltado para a Rua 20, e defendido sua posição no centro do terreno. Não há, porém, ata, carta, planta anotada ou depoimento contemporâneo que atribua a ele, a Dom Emanuel ou ao padre-arquiteto Paulo Consolini a decisão de orientar a fachada contra o centro do poder estadual.

Uma Catedral que mudou de lugar

O projeto urbanístico de Armando de Godoy, em 1936, previa no Setor Sul um núcleo religioso. A Catedral seria erguida em uma área que depois ficou conhecida como Praça do Cruzeiro, próxima dos terrenos onde hoje estão o Colégio Maria Auxiliadora e a Paróquia São José. Também estavam previstos o Palácio Arquiepiscopal e a Cúria Arquidiocesana.

Registros da urbanização mencionam, em 1947, uma Praça da Catedral no Setor Sul. A área destinada à Igreja alcançava terrenos próximos da atual Praça do Cruzeiro, do Colégio Maria Auxiliadora e de espaços que mais tarde integrariam o complexo da Universidade Católica (PUC).

A mudança veio porque Dom Emanuel considerou que o Setor Sul ainda estava afastado da área que se desenvolvia. A solução foi construir uma Catedral provisória na quadra entre as ruas 10, 14, 19 e 20, ao lado da Praça Cívica. O terreno pertencia à Igreja desde 1933 e estava ligado a uma doação de Andrelino Rodrigues de Moraes e Bárbara, sua mulher.

Andrelino também é associado à doação de aproximadamente dois alqueires para obras religiosas. Foi nessa transferência que a futura Catedral se aproximou do centro administrativo de Goiânia.

A devoção de Gercina

Antes da Catedral, a cidade já tinha uma relação com Nossa Senhora Auxiliadora. Em 24 de maio de 1935, uma missa celebrada sob uma árvore do Cerrado colocou Goiânia sob a proteção da santa. A celebração foi conduzida por Abel Ribeiro Camelo, e Gercina Borges atuou como paraninfa.

A Arquidiocese atribui a Gercina, mulher de Pedro Ludovico Teixeira, o desejo de consagrar a cidade à devoção. No sobrado da Rua 26, onde a memória do casal é preservada, há uma imagem de Nossa Senhora Auxiliadora em um nicho próximo à cama de Gercina. A escultura permanece no local desde a morte dela, há 50 anos.

Não está comprovado que essa seja a mesma imagem ligada aos primeiros cultos da Matriz de Goiânia. A imagem venerada atualmente na Catedral tem outra trajetória: veio de São Paulo nos anos 1940, emprestada pela Igreja do Bom Retiro, e acabou permanecendo na capital.

A primeira Matriz e a construção do templo

Em 22 de dezembro de 1937, a Cúria criou a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora. O cônego Abel Ribeiro foi nomeado vigário, com Francisco de Sales Peclat como coadjutor. Dois dias depois, em 24 de dezembro, a primeira Matriz recebeu a bênção antes da missa do Galo. Gercina presidiu a comissão organizadora dos festejos.

A igreja seria demolida décadas mais tarde, e Dom Abel lamentaria a perda. No mesmo local foi construído o edifício Dom Abel. A Matriz atendia à necessidade imediata, enquanto a Catedral planejada ainda demorava a sair do papel.

No Batismo Cultural de Goiânia, em 5 de julho de 1942, o cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra conduziu, às 6 da manhã, o lançamento da Pedra Fundamental da Catedral no Setor Sul, na área onde hoje está a cruz da Praça do Cruzeiro.

A planta escolhida por Dom Emanuel foi elaborada pelo padre salesiano Paulo Consolini para a Igreja de São João Bosco, em São João del-Rei, Minas Gerais. O projeto foi adaptado para Goiânia. A obra começou em 1947 e avançou em etapas, acompanhando as transformações da cidade.

A construção tem arquitetura eclética, com influências neorromânicas e neogóticas. A torre geométrica dialoga com a estética modernista de Goiânia, enquanto a forma octogonal do topo remete a tradições cristãs antigas. A leitura da cruz como representação simbólica do corpo de Cristo é apresentada como tradição, não como uma intenção comprovada do arquiteto.

A política em torno da implantação

A relação entre Pedro Ludovico e Dom Emanuel passou por divergências desde a escolha da região de Campinas para a nova capital. O arcebispo presidiu a comissão criada por decreto em dezembro de 1932 para estudar a localização da futura capital, mas preferia a região de Bonfim, atual Silvânia.

Dom Emanuel não participou da primeira missa no território da futura Goiânia nem da cerimônia da pedra fundamental, em 24 de outubro de 1933. As celebrações foram conduzidas por padres redentoristas de Campinas, que apoiavam Pedro Ludovico e tinham relação ruim com o arcebispo, ligado à congregação salesiana.

A aproximação entre Dom Emanuel e Jerônimo Coimbra Bueno ganhou força após a eleição de 1947. O arcebispo apoiou Jerônimo contra José Ludovico de Almeida, candidato do grupo de Pedro Ludovico. Dois meses depois, em 18 de maio de 1947, Dom Emanuel criou a comissão responsável por arrecadar recursos para a obra da Catedral.

Ambrosina Coimbra Bueno, mulher do governador, foi escolhida para presidir a comissão. A configuração repetia, em outro campo político, o papel exercido por Gercina na organização dos festejos da primeira Matriz.

Jerônimo também participou da decisão sobre a implantação do edifício. A narrativa histórica da Catedral registra que Dom Emanuel queria colocar a igreja na ponta da quadra, voltada para a Rua 20, para preservar os lotes voltados para a Rua 19. Jerônimo teria convencido o arcebispo a levar o templo para o centro do terreno, dando mais destaque à construção.

Isso estabelece uma interferência na posição do prédio, mas não prova que ele tenha sido girado para ficar de costas para a Praça Cívica. A diferença é decisiva: deslocar uma edificação não é necessariamente definir a direção de sua fachada.

O que os documentos permitem afirmar

A Catedral foi inaugurada em 1956 e recebeu sua sagração definitiva em 1966. A obra passou pela morte de Dom Emanuel, pelas reformas e pela persistência de Dom Abel. A restauração mais recente foi concluída em 2026.

A história preservada em Goiânia associa a orientação do templo a uma disputa entre Igreja e governo, especialmente entre Dom Emanuel e Pedro Ludovico. A documentação localizada, no entanto, não confirma essa explicação. Também não permite afirmar que a posição resultou de uma decisão de Jerônimo contra o antigo grupo político de Pedro.

O que existe é uma sequência documentada de mudanças: o plano religioso pensado para o Setor Sul, a transferência para uma quadra próxima à Praça Cívica, a influência de Jerônimo na implantação e a convivência de diferentes grupos políticos em torno da obra.

A imagem de Nossa Senhora Auxiliadora no quarto de Gercina acrescenta outra camada à história, mas sua ligação com a antiga Matriz continua sem comprovação. Assim, a Catedral permanece associada a uma pergunta ainda aberta: quem definiu sua orientação e por qual razão? Até que apareça um registro direto, a ideia de uma afronta arquitetônica a Pedro Ludovico continua sendo uma hipótese, não uma conclusão documental.

Texto produzido pela Redação Trilha de Viagem com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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