ARGENTINA — A Ediciones de la Flor vai fechar as portas depois de seis décadas no mercado editorial argentino. A editora continuará vendendo seus livros até outubro, quando encerrará as atividades.
A decisão foi anunciada em meio à crise econômica que afastou compradores das livrarias, elevou o preço do papel e dificultou a sustentabilidade das editoras. A diretora Ana María Miller, conhecida como Kuki, de 82 anos, também afirma que o governo de Javier Milei não destina recursos à cultura. “O governo não tem nenhum respeito pela cultura e não aporta nada”, disse.
O fim de uma relação com Mafalda
Durante 55 anos, a Ediciones de la Flor publicou Mafalda, personagem criada pelo argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino. A editora também foi a casa de Roberto Fontanarrosa, Caloi e Maitena.
Os sobrinhos de Quino retiraram Mafalda do catálogo. O cartunista morreu em 2020, aos 88 anos. De acordo com Kuki Miller, a perda da obra afetou as vendas, mas não foi o único motivo do encerramento. Para ela, o fator decisivo foi a impossibilidade de manter a editora nas condições econômicas e editoriais do momento.
A crise da empresa se agravou em 2025, quando foi necessário demitir funcionários. Kuki Miller afirma que a Ediciones de la Flor nunca foi criada para gerar grandes ganhos financeiros, mas para interferir na cultura. Ela também diz não ter vendido a editora por receio de que novos responsáveis publicassem obras de baixa qualidade.
Livros guardados por décadas
A editora manteve milhares de exemplares que não haviam sido vendidos e gastou recursos para armazená-los. Parte desse acervo começou a encontrar compradores: há títulos com mais de 50 anos sendo procurados por pessoas que querem recuperar livros marcantes de suas vidas.
Segundo Kuki Miller, “As livrarias estão em uma situação extrema — não se vende nada”. Ela relata que as devoluções de exemplares pelas livrarias mostram uma queda nas vendas que não pode mais ser amenizada por eufemismos. Também aponta que o livro digital mudou o mercado e que a inteligência artificial representa um risco para os direitos dos autores.
A Ediciones de la Flor foi fundada em 1966 por Daniel Divinsky, Tito Finkelberg e Jorge Álvarez. Kuki Miller entrou na editora em 1970, ano em que a casa publicou o primeiro livro de tiras de Mafalda. O primeiro título lançado havia sido uma antologia com textos de Julio Cortázar, Rodolfo Walsh e David Viñas.
A diretora afirma que os pedidos por livros antigos aumentaram, mesmo com a crise. As vendas continuam até outubro, antes do encerramento definitivo da editora.







