Uma queda que parece sem gravidade pode provocar um hematoma subdural crônico, sangramento no cérebro que se acumula lentamente e pode apresentar sinais apenas semanas ou meses depois. O alerta é do neurocirurgião Marcos Spadoni, que chama atenção para o risco principalmente entre pessoas idosas.
Com o envelhecimento, o cérebro perde volume, mas o crânio mantém o mesmo tamanho. Esse processo, chamado de atrofia cerebral, aumenta o espaço entre o cérebro e as estruturas ao redor. Nesse espaço, algumas veias ficam mais esticadas e podem se romper depois de um trauma.
O sangramento pode começar pequeno, passar despercebido e crescer aos poucos. “São sangramentos muito pequenos que, com o passar do tempo, vão se acumulando, formando o hematoma subdural crônico”, afirmou Spadoni.
Sinais podem aparecer depois da queda
A evolução gradual dificulta a associação entre os sintomas e uma pancada anterior. O quadro varia conforme o tamanho do hematoma e a área do cérebro pressionada pelo sangue acumulado.
Entre os sinais estão dor de cabeça, mudanças de comportamento, apatia, lentidão, perda de força e alterações na fala. Em algumas situações, os sintomas se parecem com os de um acidente vascular cerebral (AVC), com perda de força em um lado do corpo ou dificuldade para falar.
Também é possível que o idoso fique mais quieto, demore para responder ou tenha dificuldade para realizar tarefas habituais. Essas mudanças podem ser interpretadas pela família como efeitos do envelhecimento. Em hematomas maiores, podem ocorrer convulsões.
O uso de medicamentos anticoagulantes é outro fator de atenção. Esses remédios interferem na coagulação e podem aumentar o risco de sangramento depois de um trauma.
Tomografia é usada na investigação
Quando a família presencia uma queda com impacto na cabeça, a orientação de Spadoni é buscar avaliação e, conforme indicação médica, realizar uma tomografia de crânio. O exame verifica se já existe hematoma ou coágulo.
O neurocirurgião afirma que costuma recomendar uma nova avaliação por imagem cerca de 30 dias depois, dependendo do caso. “Eu recomendo meus pacientes sempre, depois de 30 dias, repetir essa tomografia”, disse.
A queda, porém, pode não ser percebida pelos familiares. O idoso pode estar sozinho, inclusive durante o banho, e não relatar o episódio. Nessa situação, o hematoma pode ser descoberto apenas quando surgem alterações neurológicas.
A tomografia computadorizada de crânio é o principal exame para investigar o hematoma subdural crônico. A ressonância magnética pode ser solicitada em algumas situações, mas, segundo Spadoni, a tomografia estabelece o diagnóstico na maioria dos casos.
Tratamento depende do tamanho do coágulo
A identificação do hematoma não significa automaticamente que será necessária uma cirurgia. A decisão considera o tamanho do sangramento, os sintomas e o grau de compressão do cérebro.
Coágulos pequenos podem ser acompanhados clinicamente, com medicamentos e monitoramento. Já hematomas maiores, que comprimem o cérebro, podem exigir drenagem do sangue acumulado para reduzir a pressão dentro do crânio.
Outra alternativa é a embolização da artéria meníngea média, procedimento minimamente invasivo que interrompe o fluxo de sangue para a membrana associada ao hematoma. A técnica é realizada com um cateter e pode ser indicada para pacientes selecionados.
Em alguns casos, a embolização é combinada à drenagem cirúrgica. A cirurgia retira o hematoma e alivia a pressão, enquanto a obstrução das artérias busca diminuir a possibilidade de o coágulo voltar. De acordo com Spadoni, o procedimento pode exigir apenas 24 horas de internação em situações selecionadas e evitar a cirurgia convencional.







