Um levantamento com atletas da Federação Internacional de Fitness e Fisiculturismo (IFBB) registrou 121 mortes entre 2005 e 2020. Do total, 46 foram atribuídas à morte súbita cardíaca, o equivalente a 38%. O estudo, publicado em 2025 no European Heart Journal, também apontou risco de morte súbita cardíaca cinco vezes maior entre fisiculturistas profissionais do que entre atletas amadores da população analisada.
O cenário chama atenção para o uso de hormônios em treinos de alta intensidade. De acordo com a cardiologista Déborah Prado, palpitações, dor no peito, cansaço excessivo, falta de ar, dor no estômago, aumento da pressão arterial, tontura e elevação muito rápida dos batimentos cardíacos são sinais que exigem atenção durante os exercícios.
O que os estudos indicam
A preocupação também aparece em uma pesquisa publicada em 2026 na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet. O trabalho identificou risco 51% maior de eventos cardiovasculares graves entre homens que começaram a usar testosterona sem evidências de deficiência hormonal, na comparação com pacientes que fizeram reposição depois de diagnóstico e indicação médica.
Os eventos considerados incluem infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca, insuficiência cardíaca e morte. O alerta se relaciona principalmente ao uso do hormônio para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora do desempenho físico, sobretudo quando são utilizadas doses acima das produzidas naturalmente pelo organismo.
Outro estudo, divulgado em 2026 pela revista Clinics, estimou que a prevalência do uso de esteroides anabolizantes entre brasileiros que praticam atividade física recreativa varia de 2,1% a 31,6%, conforme a população e a região analisadas.
Alterações no organismo
Segundo a endocrinologista Mariana de Souza Furtado, a testosterona em doses suprafisiológicas ou sem indicação pode interferir no sistema endócrino e comprometer a produção natural de hormônios.
Quando o organismo recebe testosterona externa em excesso, o cérebro reconhece a elevação hormonal e reduz os estímulos ligados à produção natural. Nos homens, isso pode levar à atrofia testicular, à diminuição da produção de espermatozoides e à infertilidade.
Nas mulheres, o excesso pode causar sinais de virilização, como aumento de pelos, engrossamento da voz, queda de cabelo e hipertrofia do clitóris. Também são descritas alterações no colesterol, com redução do HDL e aumento do LDL.
Entre os possíveis efeitos cardiovasculares estão hipertensão, aumento do músculo cardíaco, insuficiência cardíaca e infarto. O uso inadequado ainda pode provocar eritrocitose, caracterizada pelo aumento da concentração de glóbulos vermelhos. Com o sangue mais viscoso, cresce a possibilidade de formação de coágulos e de eventos tromboembólicos.
A lista de efeitos adversos associados ao uso sem indicação inclui ainda toxicidade hepática, hiperplasia prostática benigna e hiperuricemia, que é a elevação do ácido úrico no sangue.
Quando a reposição é indicada
A endocrinologista ressalta que a testosterona tem indicações médicas reconhecidas e que a reposição não deve ser confundida com o consumo voltado exclusivamente à estética ou ao desempenho.
“No caso dos homens, a reposição é indicada no hipogonadismo confirmado, com sintomas como redução da libido e disfunção erétil”, explica Mariana de Souza Furtado. O diagnóstico exige pelo menos duas dosagens matinais de testosterona total alteradas e investigação da causa, que pode ser hipofisária, testicular ou funcional, como nos casos de obesidade e síndrome metabólica.
Para as mulheres, a indicação respaldada por diretrizes é mais restrita: mulheres na pós-menopausa com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) que continuam sintomáticas mesmo após terapia hormonal estrogênica adequada. Nesses casos, são utilizadas doses estritamente fisiológicas femininas.
Atenção aos sinais cardiovasculares
No fisiculturismo, o uso indiscriminado pode elevar o risco de complicações cardíacas, segundo Déborah Prado. A cardiologista afirma que pode ocorrer aumento desproporcional do músculo cardíaco, com mudanças na estrutura e enrijecimento das paredes.
Também pode haver enrijecimento das artérias, favorecendo o aumento da pressão arterial e o desenvolvimento de outras doenças. Os dados não indicam que toda utilização de testosterona tenha o mesmo nível de risco. A reposição deve ocorrer após avaliação, diagnóstico e acompanhamento médico, enquanto o principal alerta é o uso sem necessidade clínica, em doses suprafisiológicas ou com finalidade apenas estética e de melhora do desempenho.








