Duas associações de servidores da Bahia mantinham mais de 103 mil autorizações de desconto em contracheques em 2025, com uma carteira estimada em R$ 1 bilhão. Asteba e Asseba são investigadas por sua relação com créditos consignados atribuídos ao Banco Master e vendidos ao Banco de Brasília (BRB).
As informações constam de um inquérito da Polícia Federal (PF) que apura fraudes no Banco Master. O sigilo dos documentos foi suspenso nesta quinta-feira (10), por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
Relação com a carteira vendida ao BRB
As entidades entraram no radar das investigações depois que o Master informou ao Banco Central (BC) que elas estavam na origem de créditos consignados que integravam uma carteira de R$ 6,7 bilhões vendida ao BRB. Mais tarde, o banco recuou e passou a atribuir os créditos à empresa Tirreno.
Os créditos foram vinculados às associações em uma comunicação enviada pelo Master ao BC em 25 de março de 2025. Dados do Governo da Bahia indicaram, porém, que os descontos nos contracheques eram mensalidades e serviços associativos, e não empréstimos consignados.
As operações apresentadas ao BC reuniam CPFs de diferentes Estados. Além disso, as associações não tinham movimentação financeira considerada compatível com o volume das cessões. A investigação estimou que as carteiras da Asteba e da Asseba somavam R$ 1 bilhão, valor inferior aos R$ 6,7 bilhões atribuídos às entidades.
Em 2025, a Asteba tinha 52.176 autorizações de desconto, enquanto a Asseba registrava 51.111. Depois dos questionamentos do BC, o Master passou a indicar a Tirreno como originadora dos créditos. Os investigadores também apontaram inconsistências nessa versão: o BC não encontrou movimentação financeira compatível com a operação, e o único relacionamento da empresa no sistema financeiro era com o próprio Master.
Mesmo com essas inconsistências, as carteiras foram revendidas ao BRB entre janeiro e maio de 2025 por R$ 12,2 bilhões, incluindo um prêmio de R$ 5,5 bilhões. Uma auditoria estimou em pelo menos R$ 5 bilhões o prejuízo ao banco público com a compra dos ativos.
Investigação sobre Augusto Lima
A PF atribui a Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, a elaboração de carteiras fraudulentas. Lima foi alvo da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, chegou a ser preso, foi solto e passou a usar tornozeleira eletrônica.
O Ministério Público Federal (MPF) também investiga a relação entre Lima, a Asteba e a Asseba. Um relatório aponta que as associações foram criadas e controladas por ele. As entidades usavam o mesmo email de contato da Terra Firme da Bahia, empresa de propriedade exclusiva de Lima, e uma delas também compartilhava o telefone da companhia.
Lima presidiu a Asteba e, depois de deixar formalmente o cargo em 2008, teria mantido o controle por meio de terceiros. O documento ainda afirma que ele figurava como procurador da Asseba, com poder para movimentar recursos.
A defesa nega as acusações e afirma que as informações prestadas pelo Master ao BC foram equivocadas. Os advogados dizem que Lima e as associações nunca autorizaram nem assinaram documentos que ligassem as entidades aos créditos do banco.
A defesa também sustenta que PF e BC afastaram a participação das associações nas supostas fraudes relacionadas ao BRB. Segundo os advogados, Lima mantinha contratos regulares de prestação de serviços com as entidades, mas não tinha procuração nem movimentava as contas. Eles afirmam ainda que ele deixou a sociedade e a direção do Banco Master em 28 de maio de 2024, enquanto a operação policial ocorreu em 18 de novembro de 2025.
As associações foram procuradas, mas a Asteba não apresentou retorno da direção e a Asseba não atendeu às ligações. A Secretaria de Administração da Bahia informou que não se manifestaria sobre os contratos de cooperação com as entidades, que oferecem serviços como planos odontológicos, compra de celulares e assistência jurídica.







