GOIÂNIA — A rede de acolhimento institucional da capital atende crianças e adolescentes que não podem permanecer com os responsáveis. Em 2024 e 2025, 703 passaram por essas unidades, em períodos que vão de alguns dias a anos. As causas incluem abandono, violência, negligência, dependência química e falta de condições para garantir cuidados básicos.
O acolhimento deve ser uma alternativa posterior à tentativa de manter a criança na própria família ou com parentes. O juiz Fernando César, da Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), afirma que a prioridade é buscar uma solução dentro da família. Quando isso não é possível, a criança vai para uma instituição.
A fiscalização envolve o Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO), o Conselho Tutelar, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Secretaria de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos. O promotor Ricardo Papa diz que as unidades são vistoriadas no local pelo menos duas vezes por ano. A situação de cada criança também deve ser reavaliada a cada três meses, em audiências ou por análise documental.
Estrutura e financiamento
Goiânia tem cinco instituições: quatro administradas por Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e uma pela Prefeitura. Entre as OSCs, apenas a Mãe Zeferina recebe dinheiro público. As demais dependem de doações e filantropia. A Prefeitura abriu um edital para repassar um salário mínimo por criança, mas os pagamentos ainda não tinham começado.
O Radicais Kids e o Brazilian Kids podem receber 20 crianças cada. O Complexo 24 Horas, de gestão pública, também tem capacidade para acolher 20 crianças e adolescentes por vez. No Brazilian Kids, havia 21 acolhidos, de 0 a 18 anos, e 20 funcionários contratados. A instituição recebe doações arrecadadas pelo missionário austríaco Reinhard Hirtler.
No Radicais Kids, que atende 20 crianças entre zero e sete anos, a principal dificuldade é pagar a equipe. A diretora Dalva Rigonato afirma: “O nosso maior desafio é a folha de pagamento”. A instituição conta com mais de trinta funcionários, distribuídos em quatro turnos.
A Prefeitura informou investimento de R$ 458.531 em serviços de alta complexidade para crianças e adolescentes. O valor inclui outras modalidades além do acolhimento. Em 2024, o orçamento da área foi de R$ 230.717,41; em 2025, caiu para R$ 227.814,18. O Ministério do Desenvolvimento Social repassou R$ 164 mil a Goiânia em 2025 para o acolhimento institucional.
Entre a retirada e a vida adulta
Emerson Rodrigo foi acolhido aos 11 anos e saiu aos 18. Ele e três irmãos pediam dinheiro nas ruas depois que a família deixou Petrolina, em Pernambuco, para tentar melhorar de vida em Goiás. A mãe era dependente química, e o Conselho Tutelar determinou a retirada.
No primeiro acolhimento, na Cidade de Goiás, Emerson diz ter presenciado violência contra os irmãos. No Brazilian Kids, em Goiânia, relata ter recebido atendimento psicológico, acompanhamento de assistentes sociais, educação, saúde e afeto. A instituição encontrou ajuda para pagar seu aluguel até que conseguisse emprego.
Hoje, Emerson treina para ser cabeleireiro em um spa no Alphaville. Ele também frequenta a igreja e afirma que seu sonho é construir a própria família e cuidar dos filhos.
A reintegração familiar continua sendo uma das prioridades. Famílias podem recuperar a guarda depois de acompanhamento e decisão judicial. Quando isso não acontece, as crianças podem seguir para parentes, adoção ou permanecer no sistema até a maioridade. O Ministério Público fiscaliza os processos de adoção, e as instituições não devem permitir que voluntários usem a convivência para tentar furar a fila legal.







