A paralisação dos funcionários da Caixa Econômica Federal interrompe etapas importantes do crédito imobiliário, enquanto novos pedidos continuam chegando por canais digitais e correspondentes bancários. Em operação regular, o banco vinha fechando mais de 3 mil contratos de financiamento imobiliário ao dia, segundo Cyro Naufel, diretor de relações com investidores da Lopes.
O descompasso preocupa o setor porque a Caixa concentra praticamente todos os contratos do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). De acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), as vendas do programa representaram metade de tudo o que foi comercializado no país no primeiro semestre. Na cidade de São Paulo, o MCMV respondeu por 69% das unidades vendidas nos últimos 12 meses até julho, conforme o Secovi-SP.
Obras e repasses sob pressão
A greve, iniciada no dia 10, atrasa tanto a formalização de novos financiamentos quanto a liberação de recursos para construções em andamento. No MCMV, a Caixa faz medições mensais para verificar a evolução da obra antes de liberar os pagamentos. Com essa rotina prejudicada, pequenas e médias incorporadoras relatam aperto financeiro.
Um empresário do setor, que pediu anonimato, descreveu como “caos” a situação entre empresas desse segmento. Ele afirmou que as companhias de capital aberto têm mais caixa para suportar a espera, enquanto negócios menores enfrentam os efeitos dos juros altos. José Pedro Donadon, CEO da ADN Construtora, disse que os atrasos nas medições pressionam diretamente o fluxo de caixa da empresa.
A Open, braço voltado ao MCMV do grupo gaúcho Melnick, conseguiu realizar as medições no período, mas ainda aguarda repasses de clientes pela Caixa. A CEO Renée Garófalo estima que 45 a 49 contratos dependam de uma solução do banco. A preocupação é que, durante a espera, o cliente assuma uma dívida e tenha a análise de crédito prejudicada.
Donadon também afirmou que a esteira de repasses está paralisada, com possível impacto nos resultados deste mês. Em relatório publicado na terça-feira (22), analistas do BTG Pactual avaliaram que a greve pode afetar o resultado das incorporadoras no terceiro trimestre, especialmente a geração de caixa. O relatório ressalvou que não é possível calcular as perdas enquanto a duração da paralisação não estiver definida. Com o fim da greve, parte da geração de caixa pode ser transferida para o quarto período.
Efeitos fora do programa habitacional
O impacto alcança empresas que não trabalham com o MCMV. Até julho, a Caixa respondeu por 44% das contratações de crédito imobiliário com recursos da poupança para compra de imóveis e por 59% das operações com esses recursos destinadas ao financiamento da construção de empreendimentos.
O uso do FGTS na compra da casa própria também depende de liberação da Caixa, o que interfere em financiamentos realizados por outros bancos. Corretores enfrentam outra consequência: a taxa de corretagem costuma ser paga pela incorporadora depois que o financiamento do cliente é repassado pela Caixa. Sem essa etapa, o profissional responsável pela intermediação não recebe sua parte.
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) vai analisar o pedido de dissídio coletivo proposto pelo banco, depois que a instituição acionou a Justiça nesta quinta-feira (24). Para Renée Garófalo, a centralidade da Caixa no setor está ligada ao peso da habitação entre os produtos do banco, além da atuação no segmento social.







