SÃO PAULO — A Polícia Federal apreendeu dinheiro em espécie, computadores e celulares durante buscas na Marmaris Corretora de Câmbio, instalada em uma galeria da avenida Paulista. A corporação investiga se a empresa foi usada para movimentar recursos ligados ao tráfico internacional de drogas e ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Foram recolhidos R$ 120,5 mil, US$ 25,9 mil (R$ 132 mil) e 2.625 euros (R$ 15,5 mil). A PF também afirma ter identificado mensagens sobre uma remessa de US$ 1,7 milhão (R$ 8,67 milhões, na cotação atual), que seria recebida em Roterdã, na Holanda.
Como a investigação chegou à corretora
O inquérito começou em 2021, em João Pessoa, depois da prisão de dois italianos acusados de integrar a máfia italiana 'Ndrangheta. Os dois foram extraditados a pedido da Itália. Um deles, Vincenzo Pasquino, afirmou conhecer a ligação entre Marcos Alexandre Agustoni, proprietário da Marmaris, e outros investigados.
A PF chegou ao nome de Agustoni após a quebra do sigilo de um dos alvos. Segundo a corporação, ele teria atuado na entrada, no Brasil, de dinheiro vindo do exterior por meio de balanços no sistema clandestino conhecido como dólar-cabo. O método usa compensações entre pessoas em países diferentes, sem registro no sistema bancário oficial.
A corporação atribui a Agustoni “papel crucial” na lavagem de dinheiro do grupo. Em outras conversas analisadas, ele trataria com investigados sobre rotas internacionais do tráfico. A PF também diz que a segurança da corretora era feita por agentes expulsos da Rota, tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, sem identificar esses agentes.
A defesa de Agustoni, feita pelo advogado Airton Jacob Gonçalves Filho, foi procurada três vezes por mensagem entre a quarta (26) e a terça (1º). Disse que se manifestaria, mas não respondeu até a publicação. Em juízo, os advogados afirmam que o empresário “não tem qualquer ligação com o tráfico de entorpecentes” e que os atos atribuídos a ele seriam apenas financeiros. O caso aguarda julgamento.
Prisão, medidas cautelares e denúncia
A Justiça decretou a prisão de Agustoni em 2024, quando a operação foi deflagrada, mas ele não foi detido de imediato. Segundo a PF, funcionários do condomínio não informaram o número do apartamento e só permitiram a entrada dos agentes quando a Polícia Militar chegou. Agustoni já havia deixado o prédio pela escadaria.
Ele ficou oito meses foragido e foi detido em agosto do ano passado. Solto em março deste ano sob medidas cautelares, usa tornozeleira, não pode deixar a comarca sem autorização e deve cumprir horário para chegar em casa.
A primeira denúncia foi apresentada no ano passado contra Agustoni e outras nove pessoas por organização criminosa e associação para o tráfico. O processo ainda está em fase inicial. O Ministério Público Federal apura a lavagem de dinheiro em um inquérito independente, questionado pelas defesas.
Em julho deste ano, a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo enviou ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) um relatório sobre possível violação das regras da tornozeleira. Os advogados disseram que Agustoni havia buscado as filhas na escola. A Justiça ainda não se manifestou.
Investigações semelhantes
A PF também investiga o uso de estruturas financeiras em um caso envolvendo o Primeiro Grupo Catarinense (PGC), organização rival do PCC e aliada do Comando Vermelho (CV). O inquérito foi aberto no ano passado em Santa Catarina.
A apuração aponta Ângelo Scotti Júnior, conhecido como Cabelo, como comandante do esquema. Ele foi preso em maio deste ano. A defesa afirmou que não teve acesso à íntegra dos autos e que se manifestaria após conhecer os fatos que sustentaram a acusação.
Segundo as investigações, as vendas na Europa envolviam pagamentos fracionados em euro e o envio dos valores ao Brasil por criptomoedas. Os repasses eram coordenados pelo empresário Maycon Marcos, dono da Smart Business, financeira que prometia retornos de 3% a 5% ao mês.
A PF diz que diálogos interceptados mostram Maycon tratando Ângelo como “um cliente diferenciado” e perguntando em nome de quem os investimentos seriam registrados. Para a polícia, a prática poderia ocultar o verdadeiro titular dos valores. As defesas de Marcos e Scotti disseram que ainda não tinham acesso completo aos autos.







