SÃO PAULO — O fiscal do Banco Central Marcio Contador Camargo afirmou à Polícia Federal que a suspensão de um termo de comparecimento de Daniel Vorcaro gerou desconforto entre equipes técnicas da autoridade monetária no primeiro trimestre de 2024. O instrumento seria usado para tratar de problemas de capital e liquidez do Banco Master.
O depoimento se tornou público após o Supremo Tribunal Federal levantar o sigilo dos autos na quinta-feira (10). Contador também relatou que, na véspera da liquidação do banco, em novembro de 2025, recebeu ordem para comparecer às 6h diante da sede da instituição, em São Paulo, sem avisar seus chefes imediatos, Paulo Souza e Belline Santana. A orientação partiu do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e do diretor de fiscalização, Ailton de Aquino.
A medida suspensa
Segundo Contador, Paulo Souza determinou que a lavratura do termo fosse interrompida. Em outro depoimento, Souza afirmou que o Banco Master havia apresentado ao Departamento de Organização do Sistema Financeiro (Deorf) um pedido de aumento de capital que estava perto de ser aprovado. Por isso, o termo teria sido substituído por um ofício com a mesma finalidade naquele momento.
O fiscal não esclareceu qual situação havia levado à proposta do termo. No período, o Ofício 787/2024-BCB/Desup, de 22 de janeiro, apontou insuficiência de margem de capital no Banco Master BI. Em 8 de março, o Ofício 4.997/2024-BCB/Desup identificou desequilíbrios de liquidez e determinou ações para corrigi-los.
O termo de comparecimento é apresentado como um instrumento de maior peso na supervisão prudencial, por levar a cobrança ao controlador e à alta administração do banco e indicar a possibilidade de liquidação e indisponibilidade de bens. O BC só realizou um termo com Vorcaro no ano seguinte, em abril de 2025.
A operação com o BRB
Contador disse ainda que Belline Santana e Paulo Sérgio Neves defendiam a aquisição do Banco Master pelo BRB. Na avaliação dele, a equipe técnica considerava a operação difícil de viabilizar porque o BRB era um banco público e a compra envolvia outras questões.
Ele reconheceu que, em termos numéricos, o modelo fazia sentido, mas afirmou que a defesa da operação poderia reduzir o prejuízo de uma eventual liquidação. Souza contesta esse relato e afirma que, até o início de 2025, apoiava uma solução de mercado com o BTG Pactual. Segundo sua defesa, em março de 2025 ele passou a defender a liquidação do Master.
Relações sob investigação
Dois meses depois da liquidação, o Banco Central abriu uma sindicância e afastou Souza e Belline. Souza teria vendido uma fazenda por R$ 4,8 milhões a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Belline teria firmado dois contratos de consultoria de R$ 4 milhões com pessoas e empresas interpostas pelo então dono do Master.
Contador era amigo próximo de Souza e revisou, em seu computador no BC, o contrato da venda da fazenda. Ele afirmou que o documento não trazia o nome do comprador e que, por isso, não sabia que Zettel havia adquirido a propriedade por meio de uma empresa. Também relatou ter emprestado R$ 30 mil a Souza em 2019 e recebido o valor de volta em 2024.
Em depoimento, Vorcaro negou que a compra da fazenda e a contratação da consultoria representassem pagamento de vantagens a servidores do Banco Central. As defesas de Souza e Belline contestam os pontos apresentados por Contador.







