A economia brasileira deve perder força na segunda metade do ano, em um cenário de consumo enfraquecido, juros elevados e alto endividamento das famílias. Analistas consultados pela XP e pela 4intelligence projetam estagnação ou crescimento muito baixo entre julho e dezembro, após avanço de 1,1% no primeiro trimestre e de 0,5% no segundo, quando o consumo das famílias caiu 0,4%.
A XP reduziu de 2% para 1,7% a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. A instituição passou a estimar estabilidade no terceiro trimestre, depois de projetar alta de 0,3%, e prevê expansão de 0,1% no quarto trimestre. A consultoria também apontou que os indicadores de atividade de julho estão em território negativo.
A 4intelligence igualmente revisou sua estimativa para 2026, de 2% para 1,9%. A consultoria destacou a perda de impulso da demanda doméstica e a desaceleração dos setores mais sensíveis ao ciclo econômico. No segundo trimestre, os segmentos que sustentaram o crescimento foram a agropecuária, com alta de 2,8%, e a indústria extrativa, com expansão de 3,4%.
Crédito e consumo
O mercado de trabalho ainda contribui para a atividade, mas a XP identificou sinais de moderação no emprego e na renda. Para a instituição, essa contribuição deve diminuir nos próximos trimestres.
Medidas adotadas pelo governo, como a ampliação do crédito para bens duráveis e a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, tiveram efeito limitado sobre o consumo. Segundo a 4intelligence, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas restringiu novas operações de crédito e dificultou a transformação do aumento da renda em consumo.
Dados de julho sobre empréstimos e financiamentos mostraram aumento disseminado da inadimplência. As concessões perderam ritmo, com exceção dos financiamentos imobiliários, enquanto o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu máximas históricas.
Juros e endividamento
A desaceleração abre espaço para novos cortes da Selic, mas a expectativa é de reduções moderadas. Desde janeiro, a taxa caiu 1 ponto percentual, de 15% para 14% ao ano. A XP estima que os juros terminem 2026 em 13,25%, ainda com taxa real de 8,7%, considerando o IPCA projetado para 2027, de 4,2%.
A inflação deste ano e as expectativas para os próximos permanecem acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central. Por isso, o alívio para as famílias endividadas tende a ser pequeno e demorado.
O cenário também pode afetar a avaliação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Em pesquisa Datafolha divulgada na semana passada, 51% dos entrevistados disseram desaprovar a administração, enquanto 45% afirmaram estar satisfeitos. O programa Desenrola, lançado novamente neste ano, terminou no fim de agosto sem alterar de forma significativa o quadro de endividamento, conforme o cenário descrito no texto.







