Os Estados Unidos estudam regras que podem preservar a maior parte dos acordos de licenciamento de medicamentos desenvolvidos por empresas chinesas. A proposta permitiria que farmacêuticas americanas investissem nesses produtos, desde que eles não estejam ligados a patógenos ou a biotecnologias com potencial de uso como armas.
A elaboração está sob responsabilidade do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. As regras ainda não foram concluídas e podem mudar, principalmente se Donald Trump decidir intervir. Autoridades do Tesouro e da Casa Branca não comentaram.
A medida seria menos restritiva do que defendem alguns parlamentares e representaria uma mudança em relação ao endurecimento promovido pelo governo Trump nas relações comerciais com a China em outras áreas, sob uma nova legislação de segurança nacional.
Acordos podem movimentar bilhões
A proposta abriria espaço para contratos de grande valor, capazes de abastecer os portfólios de medicamentos em desenvolvimento das empresas americanas e levar recursos às companhias chinesas. Os licenciamentos externos no setor de biotecnologia da China movimentaram US$ 115 bilhões no ano passado, segundo a GlobalData.
Quase metade dos acordos fechados por empresas americanas em 2025 para licenciar medicamentos estrangeiros envolveu companhias chinesas, proporção que continuou em 2026. A Bristol Myers Squibb fechou uma parceria com a Jiangsu Hengrui Pharma que pode alcançar US$ 15,2 bilhões. A Pfizer também anunciou uma colaboração de até US$ 10,5 bilhões com a Innovent Biologics, envolvendo 12 programas de oncologia.
A Pfizer esteve entre as grandes fabricantes que se reuniram nos últimos meses com integrantes do governo Trump. Albert Bourla, diretor-presidente da empresa, disse ter tratado de China e segurança nacional com Scott Bessent, Marco Rubio e representantes do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.
Bourla defendeu que os licenciamentos não sejam limitados. “Não acho que essa seja a maneira de competir com a China, tentando desacelerá-los”, afirmou. Para ele, a origem do desenvolvimento não é o ponto principal: o que importa é a existência de um novo medicamento.
Parlamentares defendem mais controle
Empresas de biotecnologia de médio e pequeno porte apresentaram uma posição oposta à das grandes farmacêuticas. Elas afirmam que o ritmo atual de investimentos na China pode prejudicar, no longo prazo, as indústrias farmacêuticas dos Estados Unidos e da Europa.
Jason Kelly, diretor-presidente da Ginkgo Bioworks, levou esse argumento a autoridades do Tesouro. Ele presidiu um comitê consultivo do Congresso sobre concorrência em biotecnologia em 2023 e 2024. “Estamos confortáveis com uma dependência estratégica da China para medicamentos inovadores?”, questionou.
John Moolenaar e Debbie Dingell, parlamentares de Michigan, também defendem regras mais rígidas. Moolenaar preside o Comitê Especial da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês e pediu que o Tesouro use a Lei COINS, aprovada em 2025, para aumentar o controle sobre transações farmacêuticas.
Os dois são coautores de um projeto que prevê regras mais rigorosas para investimentos em biotecnologia, licenciamentos e joint ventures com empresas chinesas. Jake Auchincloss, deputado cujo distrito em Massachusetts concentra empresas de ciências da vida, avalia que restringir os gastos americanos não conseguirá desacelerar a indústria chinesa. “A China está investindo US$ 100 bilhões em biotecnologia. A China tem cientistas brilhantes”, afirmou.







