O crédito caro já afeta empresas e famílias no Brasil. Enquanto os negócios encontram mais dificuldade para financiar operações e renegociar dívidas, as famílias comprometem uma parcela maior da renda com prestações. A combinação de estímulos ao consumo, aumento dos gastos públicos e juros elevados ocorre em meio a recordes de inadimplência, endividamento e recuperações judiciais.
Economistas calculam que Luiz Inácio Lula da Silva colocou 300 bilhões de reais em circulação desde 2023. Entre as medidas adotadas estão a isenção do imposto de renda para quem recebe até 5 000 reais mensais, os programas Gás do Povo e Pé-de-Meia e a possibilidade de trabalhadores sacarem o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para quitar dívidas.
Empresas e famílias no limite
A Serasa Experian informa que 9,2 milhões de empresas estão inadimplentes, com compromissos não pagos que somam 239 bilhões de reais. Quase 6 400 negócios estão em recuperação judicial ou extrajudicial, o maior patamar da história.
Entre as empresas que recorreram à proteção da lei estão o Grupo Gennius, dono das redes Habib’s, Ragazzo e Tendal, as varejistas Casas Bahia e Marabraz e a Braskem. Na terça-feira 1º, a Fertilizantes Heringer conseguiu na Justiça a suspensão, por sessenta dias, da execução de cobranças para renegociar dívidas de 834 milhões de reais. Na segunda-feira anterior, a Chilli Beans anunciou uma reestruturação para tentar convencer os bancos a reavaliar débitos de 600 milhões de reais.
As famílias também enfrentam um nível recorde de endividamento. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 82% delas têm dívidas.
Selic elevada e crédito mais seletivo
A taxa Selic está em 14% ao ano. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, é alvo de críticas de Lula pela manutenção desse nível, enquanto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, também relaciona os juros altos às dificuldades enfrentadas por empresas e consumidores.
Para Jucelia Lisboa, sócia da consultoria Siegen, o aumento dos gastos públicos desequilibra a economia e coloca o Banco Central em uma posição delicada. A dívida pública avançou de 72% para 82% do PIB durante o mandato de Lula, de acordo com os dados apresentados no levantamento.
A política monetária mais restritiva reduziu o ritmo da atividade. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre deste ano, depois de avançar 1,1% no primeiro. Já o consumo das famílias recuou 0,4%. Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, afirma que esses são efeitos do aperto monetário.
Os bancos passaram a exigir mais garantias e a restringir os empréstimos. Instituições maiores priorizam operações respaldadas por imóveis e máquinas. Bancos menores ainda oferecem crédito sem garantias reais, mas com custo mais alto e prazos menores. Entre janeiro e agosto, a Fitch rebaixou a nota de 25 grandes empresas brasileiras.
Programas de renegociação
O governo também aposta em iniciativas como o Desenrola para renegociar dívidas. Outro programa, o Move Brasil, foi lançado em maio para financiar veículos destinados a motoristas de aplicativo e taxistas. A iniciativa conta com orçamento de 30 bilhões de reais e juros subsidiados pelo BNDES.
A adesão, porém, tem sido limitada. Muitos dos possíveis participantes estão inadimplentes ou já atingiram o limite de endividamento, o que leva a maioria dos bancos a negar o financiamento. Eduardo Lima de Souza, presidente da Amasp, afirma: “Quem mais precisa continua sem crédito”.
Para Claudio Damasceno, sócio da consultoria RGF, a manutenção dessa estratégia pode agravar o cenário nos próximos meses. A dificuldade de acesso a recursos e a renegociação de débitos permanece enquanto empresas e famílias lidam com juros elevados e maior comprometimento da renda.





