O governo russo transferiu os ativos locais da Nestlé e da Auchan para a administração temporária da L.E.V. Management, empresa pouco conhecida e sem presença pública relevante. A medida foi formalizada em decreto assinado pelo presidente Vladimir Putin nesta sexta-feira (18).
A decisão atinge uma operação da Nestlé que inclui seis fábricas no país, voltadas à produção de café, alimentos para animais de estimação e fórmulas infantis. A empresa também emprega aproximadamente 7 mil pessoas na Rússia. A companhia afirmou que está avaliando a situação e que pretende proteger seus direitos e manter as operações comerciais no interesse das partes envolvidas, especialmente dos funcionários.
A Auchan opera cerca de 230 lojas e um negócio online na Rússia, com aproximadamente 30 mil empregados. A varejista não quis comentar a transferência dos ativos.
Justificativa do Kremlin
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a medida envolve companhias de países considerados “inamistosos” por Moscou. Ele disse que esses países estão “atualmente envolvidos da forma mais ativa em ações militares contra nosso país”. Peskov não citou nominalmente França ou Suíça.
A Rússia considera que países ocidentais que fornecem armas à Ucrânia, incluindo a França, participam do conflito. A Suíça não fornece armas à Ucrânia, mas adotou sanções contra a Rússia. O governo suíço manifestou preocupação e declarou que apoia a Nestlé nos esforços para reverter a decisão.
Operações e impacto financeiro
A Nestlé registrou vendas de cerca de 2 bilhões de francos suíços (US$ 2,4 bilhões) na Rússia em 2021, último ano em que divulgou esse dado. O valor equivalia a cerca de 2% das vendas do grupo, embora analistas estimem que a participação tenha diminuído após a redução das operações no país.
A empresa defendeu sua permanência na Rússia sob o argumento de que fornece produtos alimentícios essenciais. Jon Cox, analista da Kepler Cheuvreux, avaliou que a Nestlé pode perder os ativos e o caixa retido no país por período indefinido, sem uma compensação capaz de neutralizar o impacto.
A Rússia ampliou gradualmente o controle sobre ativos estrangeiros desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022. Um decreto de 2023 permite que propriedades de países considerados “inamistosos” sejam colocadas sob administração temporária. Peskov afirmou que, por enquanto, somente essa modalidade está sendo considerada.
Uma estimativa de 2025 do escritório de advocacia NSP, de Moscou, aponta que o Estado russo confiscou mais de US$ 50 bilhões em propriedades privadas desde o início da guerra, incluindo ativos de empresas estrangeiras que deixaram o país.






