JUIZ DE FORA — A Polícia Federal identificou consultas irregulares em sistemas do Ministério Público Federal (MPF), da própria PF, da Polícia Civil e do Banco Central para acompanhar investigações relacionadas a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Uma das buscas usou o CPF do banqueiro; outra pesquisou os termos “BRB AND MASTER”.
Ao receber o resultado dessa segunda consulta, Vorcaro escreveu: “Quero tudo. Atenção total”. As informações estão em uma representação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) e tornada pública nesta sexta-feira (11).
Consultas e acessos
A PF aponta Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas conversas como Felipe Mourão e também chamado de “Sicário”, como elo entre Vorcaro e uma estrutura que buscava dados em sistemas de diferentes órgãos públicos. Os investigadores encontraram consultas feitas com credenciais funcionais de terceiros.
Mourão também é apontado como coordenador do grupo “A Turma”, ao qual a investigação atribui busca por informações sigilosas, monitoramento e intimidação. Entre os integrantes identificados está o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
Em fevereiro de 2024, Vorcaro enviou a Mourão o número de um inquérito e perguntou se o caso era da Justiça Federal de São Paulo. Cerca de 40 minutos depois, Mourão encaminhou um áudio de Roseno, que, segundo a PF, afirmou já ter acionado a “Tropa” e que o pedido receberia atenção especial.
Em 23 de julho, Mourão enviou a Vorcaro o resultado de uma consulta no MPF feita com o CPF do banqueiro. A busca retornou 15 procedimentos, sendo 11 sigilosos. O registro estava associado ao login de Daniel Souza Iost, servidor do Ministério Público.
A PF afirma que o nome e o setor do servidor foram cobertos por um hachurado branco, embora os dados continuassem armazenados no PDF e pudessem ser recuperados. Para os investigadores, o recurso indicaria uma tentativa de ocultar a identidade ligada à consulta.
O mesmo usuário apareceu associado à pesquisa “BRB AND MASTER”, que localizou procedimentos com as duas expressões. O material incluía uma notícia reservada da Procuradoria da República no Distrito Federal sobre possível ocorrência de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e delitos relacionados à proposta de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A PF afirma que essa apuração deu origem à Operação Compliance Zero, que depois resultou na prisão de Vorcaro. A investigação também indica que as buscas avançaram para sistemas internos da Polícia Federal.
Sistemas da PF e consultas internacionais
Em setembro de 2025, Mourão encaminhou uma imagem do ePol com resultado de pesquisa pelo nome de Vorcaro. A tela mostrava números de inquéritos, dois deles sigilosos. Os investigadores afirmam que, em tese, o grupo não conseguiu acessar o conteúdo desses procedimentos.
A PF auditou os acessos e identificou que a consulta indevida partiu da Delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora, em Minas Gerais. A apuração sobre esse acesso ainda estava em andamento.
Em outubro de 2025, Mourão também enviou uma imagem com o logotipo da Interpol e mensagens sobre a ocultação do nome do responsável pela pesquisa, além de menções a um relatório do FBI. A PF consultou a representação da Interpol no Brasil, que informou que o layout não correspondia aos mecanismos de consulta da organização.
Os investigadores levantam a hipótese de que a tela pudesse pertencer a um sistema nacional de outro país conectado a uma base offline de notificações da Interpol. Nesse cenário, a identificação disponível apontaria apenas o país de origem da consulta, e não necessariamente o usuário responsável.







