A Polícia Federal identificou registros de produção automatizada de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento no Banco Master. Segundo a investigação, os documentos teriam sido usados para comprovar ao Banco de Brasília (BRB) a existência de créditos atribuídos à Tirreno.
As informações estão em um relatório da PF de março deste ano, elaborado a partir da análise de uma apresentação encontrada no acervo eletrônico do Master e tornada pública pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O arquivo, chamado “Investigações internas - Banco Master”, reúne dados de uma apuração sobre funcionários do banco entre junho e outubro de 2025.
A Tirreno aparecia formalmente como a empresa responsável pela origem de créditos consignados comprados pelo Master e depois cedidos ao BRB. A PF afirma, porém, que a companhia tinha ligação com a Sociedade de Crédito Direto Cartos e teria servido para atribuir uma origem formal às carteiras. O Banco Central encontrou inconsistências nos documentos e passou a investigar a existência e a regularidade da formalização dos créditos.
Entre os arquivos analisados estava uma pasta chamada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. De acordo com os investigadores, 2,7 mil procurações eram geradas automaticamente pelo recurso de mala direta do Microsoft Word. A mesma estrutura reunia CCBs e termos de assinatura.
Em 23 de junho de 2025, André Seixas Maia, apontado nos registros oficiais como responsável pela Tirreno, encaminhou ao BRB um link com documentos de 1.785 contratos. Cada contrato tinha uma CCB, uma procuração e um termo. Para a PF, a proximidade entre os registros e as datas indica que os arquivos enviados ao banco podem ter sido produzidos naquele processo. O relatório registra que “possivelmente se tratam [sic] dos mesmos arquivos”.
A investigação também localizou pastas identificadas como “Demanda BRB-Tirreno 119 amostras” e “Demanda BRB-Tirreno 299 amostras”. Na avaliação da PF, os diretórios indicam que o procedimento pode ter sido repetido em outros lotes encaminhados ao BRB.
Os documentos eram assinados em lote. Em uma das etapas, 2,7 mil CCBs foram distribuídas entre quatro funcionários, com 675 arquivos para cada um. Em um documento examinado, a data registrada era 21 de janeiro de 2025, mas a assinatura eletrônica ocorreu em 20 de junho.
A PF encontrou ainda indícios de retirada de datas dos termos de consentimento. O relatório afirma que o campo com a data e a hora da formalização foi “deliberadamente suprimido”. O mesmo padrão apareceu em termos já enviados ao BRB.
Auditoria e alteração de bases
O relatório atribui a Alberto Félix de Oliveira Neto, então executivo do Master, a supervisão de parte do processo. Em 18 de junho, um funcionário perguntou se poderia encaminhar à Deloitte a base de contratos das carteiras da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025 e informou que havia ocorrido um erro nos dados.
Dias depois, diante de uma cobrança da auditoria, Félix orientou que o caso fosse apresentado como erro operacional na seleção. Segundo a PF, essa orientação foi adotada na resposta enviada à Deloitte. A apresentação interna aponta Félix como um dos supervisores da operação e afirma que ele tinha autoridade sobre as respostas fornecidas à auditoria externa.
Os metadados do arquivo indicaram uma ex-funcionária como possível autora do material. A própria PF ressalvou, no entanto, que essa informação não comprova que ela tenha produzido o conteúdo.







