A identificação de anúncios produzidos com inteligência artificial ainda é difícil para a maioria dos brasileiros, mesmo quando há um aviso. Ao mesmo tempo, 93% dos participantes de um estudo do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (Ibpad) defendem a adoção de selos para informar esse tipo de conteúdo.
A pesquisa foi realizada on-line com 1.005 pessoas de 18 anos ou mais, nas cinco regiões do país, entre 22 e 29 de julho. Em um teste com um vídeo publicitário gerado integralmente por IA e apresentado sem identificação, 41% consideraram que o material era real. Apenas 30% reconheceram que se tratava de conteúdo sintético, enquanto 29% não souberam diferenciar.
Quando o anúncio recebeu um selo, 55% ainda não conseguiram identificar que o vídeo havia sido criado com inteligência artificial. Para Max Stabile, diretor-executivo do Ibpad, o aviso deveria seguir um padrão visual: “O ideal seria termos um selo padronizado, em um formato específico e de fácil identificação pelo eleitor”.
Diferença entre vídeos reais e sintéticos
O experimento também comparou as reações a duas versões de uma campanha que circulou nas redes sociais no início de agosto. A gravação original, feita com pessoas reais, foi recriada integralmente pela produtora Trópico AI Studio.
Entre quem assistiu à versão tradicional, 66% disseram que o conteúdo era real, 11% atribuíram a produção à IA e 23% não souberam apontar a diferença. No caso da versão sintética sem aviso, a percepção de autenticidade caiu para 41% — ainda assim, acima da parcela que identificou corretamente o uso da tecnologia.
O estudo indica que a familiaridade com ferramentas de IA interfere na confiança em marcas e na intenção de compra. Consumidores que usam a tecnologia toda semana tendem a manter a confiança e a disposição para comprar mesmo quando acreditam que o anúncio foi feito por IA. Já quem nunca usou essas ferramentas demonstra níveis menores nesses dois aspectos.
Luiza Aikawa, coordenadora de pesquisa e análises do Ibpad, afirmou que a desconfiança pode reduzir em 15% a intenção de compra. Os pesquisadores também não identificaram diferença por idade, renda, escolaridade ou posicionamento político entre as pessoas que erraram ao avaliar a origem dos anúncios.
Notícias falsas aparecem com mais frequência
O levantamento também mediu a percepção sobre a circulação de notícias falsas. Entre os participantes, 63,7% disseram se deparar com uma notícia que acreditam ser falsa: 50,3% afirmaram que isso ocorre frequentemente e 13,4%, o tempo todo.
Esse resultado supera a percepção de 28% registrada em 2018 pelo mesmo mapeamento, realizado por Max Stabile e Marisa von Bülow, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Nos últimos seis meses, 48% disseram que a circulação de notícias falsas ficou mais frequente; para 39%, permaneceu igual, e 13,4% perceberam redução.
Entre os que raramente recebem notícias falsas, grupo correspondente a 31,1% dos pesquisados, quase um terço afirmou que passou a recebê-las com mais frequência do que seis meses atrás.
A parcela que percebeu aumento é formada principalmente por pessoas que decidem as compras da casa (68%), recebem 10 salários mínimos ou mais (78%), têm 60 anos ou mais (74%), concluíram o ensino superior (72%) e avaliam bem o governo atual (70%). Na amostra total, 53% desaprovam a atual gestão do governo federal e 47% são favoráveis.
Regras eleitorais para conteúdos feitos com IA
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que propagandas eleitorais criadas ou alteradas por ferramentas de IA sejam identificadas de modo explícito, destacado e acessível em textos, áudios, vídeos e imagens. A corte também proibiu novos conteúdos gerados por IA nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores aos dias de votação.
Na terça-feira (1º), o TSE rejeitou a aplicação de multa a Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, pela exibição, durante a convenção do partido, de um vídeo de Jair Bolsonaro feito com inteligência artificial. A corte define como deepfake o conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA, ou por tecnologia equivalente, com realismo ou verossimilhança capaz de criar, reproduzir ou alterar a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa viva, falecida ou fictícia.








