A trajetória de Zuenir Ventura foi marcada por investigações que transformaram acontecimentos da história recente do Brasil em livros. O jornalista morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, depois de abordar em sua obra temas como ditadura militar, violência urbana, desigualdade, direitos humanos e Amazônia.
Um dos trabalhos mais conhecidos é “Cidade partida”, publicado em 1994. O livro nasceu depois de cerca de dez meses de circulação por Vigário Geral, na Zona Norte do Rio. A comunidade havia sido cenário, em agosto de 1993, da chacina em que 21 moradores foram mortos por policiais.
Durante a apuração, Zuenir conversou com moradores e acompanhou iniciativas da sociedade civil contra a escalada da violência. O resultado foi um livro-reportagem premiado com o Jabuti, que expôs as barreiras econômicas e sociais entre diferentes partes do Rio. A obra também acompanhou os moradores de Vigário Geral e os movimentos que buscavam responder à violência.
A volta ao ano de 1968
A relação do jornalista com a ditadura militar aparece com força em “1968 — O ano que não terminou”, lançado em 1988. O livro reconstitui a efervescência política, cultural e comportamental daquele ano e o caminho que levou, no Brasil, ao endurecimento do regime com o AI-5, decretado em 13 de dezembro.
Zuenir viveu diretamente o período retratado. Ele foi preso no início de 1969 e permaneceu três meses encarcerado. A obra vendeu mais de 400 mil exemplares e, quatro anos depois do lançamento, inspirou a minissérie “Anos rebeldes”, escrita por Gilberto Braga e exibida pela TV Globo em 1992. A outra referência literária central da produção foi “Os carbonários”, de Alfredo Sirkis. Cássio Gabus Mendes e Malu Mader estavam nos papéis centrais.
O jornalista voltou ao tema em 2008, com “1968: O que fizemos de nós”. O livro revisitou personagens, ideais e transformações daquela geração para investigar o que permanecia quatro décadas depois. A obra trata das heranças dos movimentos feminista, negro, LGBT e ambiental, além de mudanças de costumes e da relação de novas gerações com política e drogas.
A investigação sobre Chico Mendes
Em 1989, poucos meses depois do assassinato de Chico Mendes, Zuenir passou cerca de um mês no Acre. A investigação sobre o seringueiro e ambientalista resultou na série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, que recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog.
Anos mais tarde, o jornalista retornou à região, atualizou o trabalho e reuniu o material em “Chico Mendes — Crime e castigo”, publicado em 2003. Durante aquela apuração, conheceu Genésio Ferreira da Silva, testemunha-chave do assassinato de Chico Mendes, ainda adolescente. A relação entre os dois foi retomada mais tarde nas memórias do jornalista.
Memórias pelos personagens
Em “Minhas histórias dos outros”, lançado originalmente em 2005, Zuenir reconstruiu a própria trajetória por meio das pessoas que encontrou ao longo de décadas de jornalismo. Ele chamou o livro de uma espécie de “alterbiografia”.
Nelson Rodrigues, Betinho, Hélio Pellegrino, Darcy Ribeiro e Glauber Rocha estão entre os personagens da obra. Os relatos passam por episódios ligados à ditadura e à redemocratização, à revolução sexual, à chegada da aids e à expansão do narcotráfico. Uma edição revista e ampliada foi lançada em 2021.
Em 2022, aos 91 anos, Zuenir recebeu o prêmio Faz Diferença na categoria Livros pela nova edição. Na ocasião, definiu a homenagem como uma honra por valorizar a democracia.
A produção do jornalista também inclui “Inveja — Mal secreto”, de 1998; “Crônicas de um fim de século”; “O Rio de J. Carlos”; “Cultura em trânsito — Da repressão à abertura”, escrito com Heloísa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari; e o romance “Sagrada família”, lançado em 2012.







