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“A Peste” expõe como os totalitarismos podem voltar à vida pública
Brasil

“A Peste” expõe como os totalitarismos podem voltar à vida pública

Romance de Albert Camus, publicado em 1947, transforma uma epidemia em símbolo da resistência ao nazismo e aos autoritarismos.

O romance “A Peste”, de Albert Camus, chegou às livrarias em 5 de junho de 1947 e rapidamente ampliou a notoriedade do escritor. A primeira edição teve 22 mil exemplares; dez dias depois, foi necessário publicar outra tiragem com o mesmo número. Até setembro, mais de 52 mil exemplares haviam sido vendidos, e Camus recebeu o Prêmio dos Críticos.

A obra acompanha uma epidemia em Orã, cidade que enfrentou uma epidemia de cólera de 1849. Camus pesquisou pestes que atingiram a Argélia ao longo da história e usou esse material para construir uma narrativa que denuncia o nazismo sem nomeá-lo diretamente. A doença funciona como símbolo de regimes totalitários e autoritários, que podem voltar a ocupar espaço quando a sociedade deixa de enfrentá-los.

Personagens diante do colapso

O médico Bernard Rieux representa o combate à peste mesmo quando os resultados parecem incertos. Jean Tarrou organiza o trabalho voluntário, enquanto o jornalista Raymond Rambert desiste de procurar a esposa que está no exterior e decide participar do enfrentamento coletivo.

Cottard, por outro lado, enriquece com negócios no mercado negro e enlouquece quando a peste termina, disparando contra a multidão. O padre Paneloux tem a fé abalada diante da morte de uma criança. A trajetória desses personagens sustenta conflitos sobre solidariedade, responsabilidade e reação diante da violência.

A conclusão do romance não elimina o risco. A peste pode ser derrotada por algum tempo, mas permanece à espreita, alimentada por homens e instituições. Por isso, a vigilância e a resistência precisam ser contínuas. Como resume uma frase atribuída a Camus: “Julgam-se livres e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos.”

O ambiente político da escrita

Camus escreveu o livro entre 1943 e 1947, enquanto a França atravessava uma fase de intensa disputa política e cultural. Em 1944, a Alemanha nazista deixou o país, mas a resistência, o debate sobre o futuro francês e a discussão sobre a guerra continuaram em evidência.

Intelectuais criaram redes clandestinas e editoras subterrâneas para driblar a censura. A execução do escritor fascista Robert Brasillach dividiu esse grupo. Camus defendeu a liberdade de expressão, enquanto Louis-Ferdinand Céline e Lucien Rebatet foram presos ou exilados sob acusação de colaboração com o nazismo.

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir ocupavam posição central na vida cultural e política. Sartre publicou “O Ser e o Nada” em 1943 e apresentou a conferência “O existencialismo é um humanismo” em 1945. A revista “Les Temps Modernes”, fundada em 1945 por Sartre, Beauvoir e Maurice Merleau-Ponty, ajudou a consolidar a ideia do intelectual engajado.

O Partido Comunista Francês ganhou força por sua participação na resistência ao nazismo e atraiu nomes como Louis Aragon e Pablo Picasso. Nesse contexto, Camus também atuava no jornalismo, escrevendo sobre a reconstrução da Europa, a ética política e o combate aos totalitarismos. Ele ainda condenou moralmente o uso de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

O conflito entre Camus e Sartre

Durante a redação, Camus modificou os personagens para ajustar a compreensão sobre as escolhas necessárias diante de regimes de direita ou esquerda, como nazismo, fascismo, franquismo e comunismo. O escritor se identificava com a esquerda, mas rejeitava a ideia de que os fins justificassem os meios.

O posicionamento abriu uma divergência com Sartre. Camus recusava aceitar campos de concentração e, conforme a biografia escrita por Olivier Todd, considerava que o principal perigo vinha do Leste e da URSS, e não do Oeste com os Estados Unidos. A crítica posterior de Roland Barthes questionou o uso da epidemia como fábula, porque uma peste biológica teria causas naturais e exigiria solidariedade no combate.

Para a leitura política do romance, porém, os totalitarismos são resultado da irresponsabilidade humana. Eles precisam ser reconhecidos e enfrentados por meio de resistência ideológica, participação coletiva e atenção permanente aos sinais de violência.

A obra também sustenta que não basta esperar. A peste atinge leis, autoridades, juízos de valor e a própria noção de verdade. O combate exige exposição ao risco e solidariedade, sem a ilusão de que a ameaça ficará sempre distante.

Ao transformar a doença em metáfora, Camus mostra que a violência pode atingir pessoas e instituições de diferentes posições. A esperança aparece ligada à capacidade humana de reagir, mas não substitui a ação. A advertência central permanece: a peste não desaparece definitivamente e pode encontrar novas portas quando a sociedade se acostuma à clausura, à indiferença e à destruição ao redor.

Texto produzido pela Redação Trilha de Viagem com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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