GOIÂNIA — A rotina de Vanda da Silva, de 81 anos, ganhou um compromisso fixo: duas vezes por semana, ela participa de aulas de alfabetização no Setor Central da capital. O esforço tem um objetivo pessoal, mas também muda a forma como ela lida com tarefas do dia a dia: conquistar mais autonomia para ler informações, entender documentos e realizar atividades sem ajuda.
A vontade de estudar voltou depois da perda de pessoas próximas que costumavam auxiliá-la. Na infância, Vanda não teve a oportunidade de aprender a ler e, ao longo da vida, conviveu com limitações em situações que dependem da leitura. Agora, ela tenta recuperar esse aprendizado depois de mais de oito décadas.
“Meu principal objetivo é conquistar mais autonomia no dia a dia e, entre todos, um desejo especial se destaca: conseguir ler a Bíblia por conta própria”, conta.
O desafio de continuar
As aulas também exigem que Vanda lide com dores frequentes, que às vezes atrapalham a rotina e reduzem o ritmo dos exercícios. Mesmo assim, ela decidiu permanecer na sala de aula.
“A dor no corpo não é maior do que a minha vontade de aprender. Cada aula é um passo, e eu não vou parar até conseguir ler sozinha”, afirma.
O desejo de ler a Bíblia é o símbolo principal dessa caminhada, mas não resume os ganhos buscados por Vanda. Identificar uma placa, compreender uma frase ou preencher um formulário são avanços que podem diminuir a dependência de terceiros.
Ela frequenta gratuitamente o Programa de Alfabetização e Letramento da Estácio Goiás, realizado no Shopping Estação Goiânia. A iniciativa recebe jovens, adultos e idosos que não foram alfabetizados ou que pretendem desenvolver conhecimentos básicos de leitura, escrita e matemática.
Um retrato da alfabetização em Goiás
Na mesma sala está Marlene Lúcia dos Santos, de 65 anos. Incentivada pelos netos, ela decidiu estudar e relata mudanças práticas, como mais independência para usar o transporte coletivo e seguir receitas culinárias.
As histórias fazem parte de uma realidade mais presente entre pessoas mais velhas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2025 mostram que 3,5% dos goianos com 15 anos ou mais eram analfabetos, o equivalente a aproximadamente 207 mil pessoas. Entre os mais velhos, a taxa chega a 12,3%.
No país, o índice caiu para 4,9% em 2025, abaixo de 5% pela primeira vez desde 2016. Ainda assim, cerca de 8,4 milhões de brasileiros não sabiam ler e escrever.
Para Katiuscia Soares, coordenadora do programa, o retorno aos estudos envolve também superar a vergonha e a ideia de que não há mais tempo para aprender. O avanço pode aparecer em tarefas simples, como reconhecer uma palavra na rua ou compreender uma informação curta. É nesse processo que Vanda segue, com a meta de abrir a Bíblia e fazer a leitura por conta própria.







