BRASÍLIA — Adultos que interromperam os estudos na infância estão retomando a alfabetização por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA). No Centro de Estudos Supletivos Asa Sul (Cesas), estudantes relatam que o trabalho precoce, as responsabilidades familiares, dificuldades econômicas e o machismo afastaram muitos deles da escola.
No Brasil, 4,9% da população ainda não sabe ler e escrever, o equivalente a cerca de 8,4 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse grupo, 58% têm 60 anos ou mais. O direito à educação está previsto no artigo 205 da Constituição Federal.
Para o pedagogo Tupinambá Barros do Santos, professor do Cesas, os dados precisam ser associados às histórias de quem aparece nas estatísticas. “A gente nunca lembra que aquele número são pessoas.”
Histórias interrompidas
A dona de casa Maria Domingas Borges da Silva, 56 anos, está na etapa de alfabetização da EJA. Quando era jovem, encontrou resistência dos pais e, depois, do marido. Segundo ela, as meninas eram preparadas para o casamento e a maternidade, e estudar não era visto como uma possibilidade.
Maria também trabalhou desde cedo e cuidou da mãe quando ela adoeceu. Mais tarde, uma filha perguntou se ela gostaria de estudar e tomou a iniciativa de matriculá-la. Hoje, a estudante mantém a rotina de trabalho como doméstica, cuida da família e busca aprender a ler para circular pela cidade, identificar lugares e ir ao hospital sem depender de outras pessoas.
Ela é mãe de seis filhos, todos com os estudos concluídos. Também quer escrever a própria história. A decisão de voltar à escola, porém, já foi questionada por pessoas que consideraram o esforço inútil.
Marcos Antônio de Sousa Costa, 52 anos, começou a trabalhar aos sete anos e viveu em uma realidade rural. A interrupção dos estudos ocorreu há 32 anos, quando o trabalho ocupava o espaço da escola. O retorno aconteceu após um incentivo do filho, que chamou os pais para estudar.
Para Marcos, a alfabetização está ligada à autonomia em situações como pegar um ônibus. Ele também lamenta ter perdido oportunidades por não ter estudado, como a possibilidade de servir ao Exército. O filho, de 11 anos, está na sétima série e serve de referência para o pai.
Maria Júlia Ferreira, 64 anos, estudou até o primeiro ano na Bahia. Criada por familiares e sem contato com os pais, começou a trabalhar aos 12 anos como empregada doméstica. Ela chegou a pedir à patroa que a matriculasse, mas o pedido foi negado.
Política pública
O Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da Educação de Jovens e Adultos (Pacto EJA), instituído pelo Decreto nº 12.048/2024, foi criado pelo Ministério da Educação em colaboração com estados, Distrito Federal e municípios.
A iniciativa prevê ações para combater o analfabetismo, ampliar a aprendizagem ao longo da vida, elevar a escolaridade, aumentar as matrículas na EJA e melhorar as condições de oferta da modalidade. Para os estudantes, essas medidas se concretizam na sala de aula e na possibilidade de realizar atividades que antes dependiam da ajuda de outra pessoa.
Marcos resume o convite a quem ainda não sabe ler e escrever: “Quem não sabe… venha. A pior coisa é sair e não saber pegar um ônibus. Ter que alguém ir com você.”








