A presença, a ausência e o comportamento de determinadas espécies ajudam a avaliar a qualidade de rios, córregos, lagos e oceanos. Esses organismos são chamados de bioindicadores e funcionam como sinais das transformações que ocorrem nos ecossistemas aquáticos.
A lógica é semelhante à dos líquens encontrados em troncos de árvores. Eles absorvem diretamente da atmosfera substâncias como dióxido de enxofre, ozônio e metais pesados. Em locais com muita poluição, desaparecem ou ficam bastante reduzidos. Quando aparecem em grande quantidade e variedade, indicam condições favoráveis do ar.
Nos ambientes aquáticos, a análise também considera as respostas dos seres vivos. O desaparecimento de uma espécie sensível que antes era comum em uma lagoa pode indicar uma mudança ambiental. Da mesma forma, a presença de espécies típicas de locais preservados em um rio sugere que as condições ecológicas continuam favoráveis.
O que é biomonitoramento
O uso sistemático das respostas dos organismos para acompanhar as condições ambientais é chamado de biomonitoramento. Ao contrário da análise química, que mostra as condições da água no momento da coleta, os bioindicadores integram os efeitos ambientais ao longo do tempo. Assim, podem registrar impactos recentes e alterações crônicas.
Cada espécie reage de uma maneira. Algumas toleram níveis elevados de degradação, enquanto outras desaparecem rapidamente diante de mudanças. Por isso, uma boa bioindicadora precisa ter tolerância moderada à variabilidade ambiental: deve reagir às alterações, mas permanecer presente em diferentes estágios de degradação.
Os pesquisadores, porém, não costumam basear o diagnóstico em uma única espécie. O mais importante é analisar as comunidades biológicas em conjunto, já que diferentes organismos respondem de forma complementar às mudanças no ambiente.
Diferentes grupos, diferentes sinais
As microalgas, especialmente as diatomáceas, respondem rapidamente às mudanças químicas da água. O ciclo de vida curto e a reprodução acelerada permitem identificar alterações recentes. A análise, contudo, exige microscópio de alta resolução e conhecimento taxonômico especializado.
Os macroinvertebrados bentônicos incluem larvas de insetos, crustáceos e moluscos associados ao fundo dos ambientes aquáticos. Como têm menor mobilidade e ciclos de vida mais longos, ajudam a detectar alterações persistentes. Também podem indicar modificações estruturais, como a degradação do leito de um rio. A coleta tem dificuldade moderada, mas o processamento das amostras exige muitas horas de trabalho em lupas.
As macrófitas aquáticas, como aguapés e plantas submersas, respondem às condições do ecossistema no longo prazo. Elas podem refletir mudanças na estabilidade das margens e o acúmulo de nutrientes.
Os peixes ocupam níveis mais altos da cadeia alimentar e têm ciclos de vida ainda mais longos. Por dependerem de diferentes micro-habitats para alimentação e reprodução, alterações em sua comunidade podem sinalizar perda de habitats, mudanças na conectividade dos rios e modificações no regime de fluxo. Esses animais também ajudam a detectar a bioacumulação de contaminantes, como metais pesados, nos tecidos.
A amostragem de peixes, por outro lado, normalmente exige equipamentos maiores e uma equipe mais numerosa, o que encarece e limita a frequência das coletas. A escolha dos grupos e da periodicidade do monitoramento depende, portanto, do equilíbrio entre a sensibilidade biológica e a viabilidade operacional.
Monitoramento no Araguaia
Na bacia do Rio Araguaia, projetos como o Programa Ecológico de Longa Duração (PELD) Araguaia, o Centro de Excelência em Segurança Hídrica do Cerrado (CEHIDRA CERRADO) e o PPBio Araguaia, da PUC-Goiás, acompanham continuamente os lagos da região.
As equipes combinam métodos tradicionais de coleta de peixes, algas, macrófitas, insetos aquáticos e microcrustáceos com ferramentas como o DNA ambiental (eDNA). A integração permite observar como a biodiversidade responde às mudanças, separar variações naturais de impactos provocados por atividades humanas e acompanhar a transformação dos ecossistemas ao longo dos anos.
Maria Gabriela Junqueira é pós-doutoranda na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e pesquisadora do PELD Araguaia. João Carlos Nabout é professor na UEG, pesquisador do PPBio Araguaia e do INCT EECBio, diretor científico do CEHIDRA e coordenador do PELD Araguaia.








