Uma carta escrita em 1637 ajudou a demonstrar o potencial de uma ferramenta de inteligência artificial usada agora na análise da Cifra Borg, manuscrito preservado na Biblioteca do Vaticano. O documento, com 408 páginas, permaneceu por mais de quatro séculos sem ter seu conteúdo totalmente compreendido.
O sistema Transkribus foi desenvolvido para trabalhar com manuscritos históricos. Na análise da Cifra Borg, ele auxiliou no reconhecimento e na transcrição dos símbolos, convertendo as páginas em blocos de texto e linhas que puderam ser examinados digitalmente. A tecnologia também foi aplicada à carta enviada pelo nobre Sigismund Heusner von Wandersleben ao chanceler sueco Axel Oxenstierna durante a Guerra dos Trinta Anos.
Mesmo com a necessidade de correções e intervenções humanas, a ferramenta apresentou resultados relevantes para os pesquisadores. A professora Michelle Waldispühl, da Universidade de Oslo, ressaltou a utilidade da tecnologia em documentos escritos com sistemas de caracteres incomuns. Com a combinação entre inteligência artificial e análise humana, etapas que poderiam exigir anos de trabalho manual podem ser aceleradas.
A Cifra Borg é formada por símbolos e diferentes sistemas de cifragem. Especialistas identificaram dezenas desses sistemas: em alguns trechos, símbolos distintos podem representar a mesma letra; em outros, determinados sinais parecem ter sido incluídos para dificultar a interpretação.
A única indicação anterior sobre o conteúdo estava em uma inscrição na contracapa, que mencionava tratamentos para doenças do corpo humano. A análise de parte do material confirmou a presença de receitas e métodos medicinais, incluindo preparações contra a disenteria com recomendações sobre o consumo de vinho tinto e o uso de noz-moscada submetida à fermentação.
O uso de códigos pode ter protegido conhecimentos sobre ervas e tratamentos em uma época na qual esse tipo de saber poderia ser associado a práticas ilícitas ou à bruxaria. Tinta desbotada, páginas danificadas e caligrafia difícil também aumentam a complexidade do estudo.
A linguista computacional Beáta Megyesi, da Universidade de Estocolmo, comparou a tarefa a uma investigação na qual cada símbolo e padrão ajuda a reconstruir informações sobre o período e sobre os autores dos documentos.
A inteligência artificial reconhece padrões, transcreve caracteres e testa possibilidades com mais velocidade que a análise manual. A interpretação histórica e a validação das soluções, porém, continuam dependendo dos pesquisadores. Técnicas semelhantes já foram usadas em cartas secretas de Maria Stuart, que revelaram informações sobre conspirações políticas e sua relação com o filho, Jaime 6º da Escócia, depois Jaime 1º da Inglaterra.








