Mensagens trocadas nos quatro dias anteriores à primeira prisão de Daniel Vorcaro ampliaram os registros sobre a relação do banqueiro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Entre 13 e 16 de novembro de 2025, Flávio tentou falar com Vorcaro diariamente. No último contato, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Vorcaro foi preso no dia seguinte, no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para viajar ao exterior. As mensagens não mostram qual assunto Flávio pretendia tratar nem indicam publicamente que ele soubesse da operação policial.
Do financiamento aos contatos pessoais
A relação entre os dois também aparece em registros ligados ao filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em 13 de maio, depois de inicialmente negar que Vorcaro tivesse financiado a produção, Flávio reconheceu que havia procurado o banqueiro em busca de recursos. A negociação previa US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, com aproximadamente R$ 61 milhões repassados.
Áudios e mensagens indicam que o senador acompanhava as tratativas. Em 8 de setembro de 2025, cobrou parcelas atrasadas e demonstrou preocupação com a situação financeira do filme. Vorcaro respondeu que resolveria o problema. Na sequência, os dois conversaram por WhatsApp durante dois minutos e 38 segundos.
Também há registro de uma reunião presencial em agosto. Em setembro, integrantes da produção informaram a Vorcaro que Flávio queria mostrar material já gravado. Em outubro, o senador convidou o banqueiro para um jantar com Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e Cyrus Nowrasteh, diretor do filme. Em 7 de novembro, enviou um vídeo da produção e agradeceu o apoio.
Declarações sobre aviões e encontros
Em julho, Flávio afirmou que sua única relação com Vorcaro era ligada ao filme e negou ter viajado em avião do banqueiro. O deslocamento, porém, ocorreu em 19 de janeiro de 2025, quando Flávio, Fernanda e as duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um Legacy 650 operado pela Prime You, empresa que tinha Vorcaro entre os sócios naquele período.
A aeronave tinha propriedade compartilhada. Uma cota estava vinculada à Prime You e outra pertencia ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Tomaz disse que convidou o senador, solicitou o voo e pagou integralmente pela viagem. Flávio afirmou que desconhecia a participação da empresa ligada ao banqueiro.
Outro encontro veio a público depois de Flávio dizer, em 15 de maio, que não haveria novidades além de contatos relacionados ao filme. Quatro dias mais tarde, foi revelado que ele havia procurado Vorcaro pessoalmente após a primeira prisão do banqueiro, quando ele estava em prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica. A reunião ocorreu na casa de Vorcaro, em São Paulo, depois de sua soltura em 28 de novembro.
Prestação de contas não divulgada
Em 19 de maio, Flávio prometeu que a produtora apresentaria, em até 30 dias, uma prestação de contas dos recursos usados no filme. O prazo terminou em 18 de junho sem a divulgação dos documentos pelo senador ou pela produção.
Depois, Flávio passou a dizer que a exigência havia sido atendida com a entrega de documentos à Polícia Civil de São Paulo durante uma investigação. O material citado não detalha os gastos realizados nos Estados Unidos nem as transações do fundo Havengate, estrutura financeira investigada pela Polícia Federal.
Em relatório tornado público neste mês, a PF descreveu Flávio como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações financeiras de Dark Horse. Os investigadores ainda buscam esclarecer a origem dos recursos, o papel das empresas usadas nos repasses, o destino do dinheiro enviado ao exterior e a atuação de cada envolvido. Flávio é investigado e nega irregularidades.







