As secas severas registradas entre 2023 e 2024 expuseram limites da capacidade de resposta aos extremos climáticos na Amazônia. Um estudo do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) aponta que a intensificação das estiagens, associada à crise climática global e ao fenômeno do El Niño, elevou as temperaturas e reduziu os níveis dos rios em toda a bacia amazônica.
A queda do nível dos cursos d’água afeta uma região cuja circulação, abastecimento e escoamento da produção dependem deles. Com isso, ficam comprometidos o deslocamento de pessoas e mercadorias e o acesso a serviços essenciais, como saúde e educação. As estiagens também pressionam a segurança hídrica e alimentar e aumentam a vulnerabilidade da floresta a incêndios.
Coordenação antes das emergências
Diante da extensão territorial da Amazônia, do acesso difícil a muitas localidades e das diferenças de capacidade institucional e financeira entre os governos subnacionais, o estudo recomenda uma governança climática preventiva. A proposta é articular órgãos, políticas públicas e diferentes níveis de governo antes que uma emergência aconteça.
Na prática, a coordenação entre União, estados e municípios deve ser permanente. Diretrizes nacionais precisam ser transformadas em planos locais de adaptação, com financiamento contínuo. Os sistemas de monitoramento também devem estar ligados a protocolos claros, que definam as medidas a serem tomadas conforme o nível de risco, os responsáveis e os recursos disponíveis.
União e estados têm papel decisivo no apoio técnico, no financiamento e no fortalecimento das capacidades municipais. A pesquisa também recomenda substituir modelos genéricos e centralizados por políticas que considerem as especificidades de cada território amazônico.
Participação de comunidades tradicionais
As diretrizes do Plano Clima são apresentadas como um caminho para incorporar os direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais às políticas de adaptação. A diversidade étnica da Amazônia inclui povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas, com modos de vida e produção que exigem respostas ajustadas às diferentes realidades locais.
O estudo defende ainda a inclusão de tecnologias sociais e dos conhecimentos acumulados por essas comunidades na produção de informações, no planejamento e na tomada de decisões. Para as pesquisadoras, quem vive e maneja a floresta e os rios possui conhecimentos sobre as dinâmicas ambientais locais que podem contribuir para estratégias de resiliência.
A pesquisa é assinada por Karine Julião, doutoranda em gestão pública pela USP, pesquisadora e gestora de projetos no Programa de Desenvolvimento Local do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, e Tainá Holanda, cientista social, mestre em geografia, pesquisadora e gestora de projetos no mesmo programa.







