A posse de Bernardo Élis na Academia Brasileira de Letras reuniu, em 10 de dezembro de 1975, o escritor goiano e Juscelino Kubitschek, derrotado por ele na eleição para a Cadeira n° 1. Sentado ao fundo do salão nobre do Petit Trianon, o ex-presidente aguardou o momento de cumprimentar o novo imortal, segundo o relato de Josué Montello em seu Diário Completo.
A escolha de Élis havia sido apertada. O resultado só saiu no terceiro escrutínio, com 20 votos para o autor de “O Tronco” e 18 para JK. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira fez a recepção do novo acadêmico.
A disputa e as versões sobre a campanha
No diário, Montello registra que tentou defender a candidatura de Kubitschek. Nesse contexto, atribuiu à campanha de Bernardo Élis uma suposta ajuda do general Golbery do Couto e Silva. Essa colaboração nunca foi comprovada.
A hipótese é contestada pela trajetória política de Élis. Um dos fundadores do Partido Comunista em Goiás, ele foi perseguido pela ditadura civil-militar: perdeu a cátedra na Universidade Federal de Goiás, foi aposentado compulsoriamente do cargo de professor da Escola Técnica Federal de Goiás e permaneceu sob vigilância do SNI por mais de dez anos, conforme arquivos disponíveis no sian.an.gov.br.
Antes da disputa pela ABL, Élis havia tentado, sem sucesso, candidaturas a deputado federal e a deputado estadual pelo Partido Comunista do Brasil em Goiás, em 1945 e 1947, respectivamente. O escritor também já tinha reconhecimento fora do estado, com o Prêmio José Lins do Rego, da Editora José Olímpio, em 1965; o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, em 1967; e dois Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1967 e 1968.
O encontro no Petit Trianon
De acordo com o diário de Montello, Kubitschek teria comentado depois da eleição: “Agora sei, por experiência própria, que é mais fácil ser eleito presidente da República”. O ex-presidente havia vencido suas pretensões eleitorais e, conforme o relato, aquela foi a única eleição que perdeu.
Montello também registrou a expectativa de que Élis se envergonharia da vitória. Isso não aconteceu. A prosa do escritor goiano foi elogiada por Monteiro Lobato e Guimarães Rosa. Em seu livro autobiográfico póstumo A Vida São as Sobras, Élis afirmou que queria resgatar o nome de Goiás e integrá-lo à comunidade literária nacional.
Na noite da posse, Kubitschek compareceu à cerimônia e cumprimentou o novo imortal. O gesto encerrou a disputa entre os dois candidatos com a presença do ex-presidente diante do escritor que o havia vencido no voto.







