GOIÂNIA — O nome Ricardo Paranhos está presente em placas, anúncios imobiliários, endereços comerciais e aplicativos de trânsito. Na alameda do Setor Marista, uma das áreas mais valorizadas da capital, o sobrenome também aparece associado a edifícios, restaurantes, clínicas e novos empreendimentos. A trajetória do homem homenageado, porém, ficou distante da memória cotidiana da cidade.
O traçado da via já fazia parte do Plano Original de Goiânia, aprovado em 1937. Na época, a região ainda era próxima do cerrado e da reserva que mais tarde daria origem ao Parque Areião. Quando Ricardo Augusto da Silva Paranhos morreu, em 1941, aquele trecho da nova capital permanecia praticamente sem urbanização. Décadas depois, com a consolidação do Setor Marista, a avenida recebeu o nome do poeta, cronista e político nascido em Catalão.
Entre a literatura e a política
Ricardo nasceu em Catalão, em 1866. Era filho do coronel Antônio da Silva Paranhos e de Belisária da Costa. O pai, comerciante e integrante de uma família de origem portuguesa ligada ao Visconde do Rio Branco, estabeleceu-se na cidade e tornou-se coronel da Guarda Nacional.
Ainda jovem, Ricardo foi estudar em São Paulo com a intenção de cursar Direito no Largo São Francisco. Problemas de saúde interromperam o plano, mas a passagem pela cidade fortaleceu seu interesse pela literatura. De volta a Catalão, em 1884, trabalhou no comércio da família e tornou-se sócio da Casa Paranhos & Cia., que revendia produtos vindos do Rio de Janeiro.
Depois da Proclamação da República, Antônio Paranhos foi eleito senador por Goiás, em 1890. Ricardo também entrou na política e participou da Constituinte estadual de 1891 como deputado, além de ocupar a Secretaria da Assembleia. A experiência terminou em meio a uma crise: o governo dissolveu a Assembleia, e ele participou de uma reação que chegou à tomada da Prefeitura de Catalão.
A tensão aumentou no ano seguinte. A casa da família foi cercada e atacada por jagunços e adversários. O confronto durou dias, houve morte, e os Paranhos deixaram a cidade. Ricardo registrou parte daquele ambiente em O Crime de Catalão, livreto de 34 páginas publicado no Rio de Janeiro.
A morte do pai e os anos de confronto
Em novembro de 1897, Antônio da Silva Paranhos foi morto a tiros diante do próprio sobrado. Ricardo viajou para o Rio de Janeiro e, em 1898, publicou Os Canibais, folheto em que denunciou o assassinato e os conflitos políticos da região. Ao narrar a cena, escreveu: “Como era horrível se ver aquele ancião de cabelos de prata, respeitável pela idade e pela posição social, de joelhos em plena rua, todo banhado em sangue”.
Em 1899, foi nomeado delegado de polícia em Catalão, mas ficou pouco tempo no cargo. No ano seguinte, elegeu-se senador estadual e assumiu o mandato em 1901. Também fundou o jornal Goiás e Minas, mantendo a política, o jornalismo e a literatura próximos de sua rotina.
Em 1904, mudou-se com a mulher e os filhos para a Cidade de Goiás. Nesse período, escreveu “Despedida de Catalão”, poema em que expressou a dor de deixar a cidade natal. Catalão reunia, para ele, afeto, perseguição política, exílio e a morte do pai.
A ascensão de Totó Caiado e de seus aliados, em 1909, agravou sua situação. Eliseu da Cunha, apontado por Ricardo entre os envolvidos na morte de Antônio Paranhos, foi nomeado intendente de Catalão. A partir daí, Ricardo se afastou gradualmente da política e passou a investir em negócios ligados à estrada de ferro, especialmente na produção de dormentes.
Quando os trilhos chegaram a Catalão, em 1913, ele foi convidado para ser o orador oficial da inauguração. Discursou em Anhanguera, Cumari e Goiandira, mas não falou ao chegar à cidade natal. Isaac da Cunha, armado, o ameaçou: “Aqui, você não fala! E, se abrir o bico, morre!” Ricardo ainda cumpriu mandato de senador estadual entre 1913 e 1916, mas depois abandonou a vida política.
A obra fragmentada
Em 1920, uma enchente do Rio Paranaíba atingiu suas serrarias em Anhanguera e Engenheiro Bethout. Ricardo faliu e passou a viver com mais modéstia, inclusive na casa de uma das filhas, em Corumbaíba. A literatura tornou-se o centro de sua vida.
Sua reputação como poeta alcançou Goiás e o Triângulo Mineiro. O escritor e matemático Júlio César de Mello e Souza, conhecido como Malba Tahan, foi visitá-lo em Corumbaíba por causa de seus versos.
Parte da produção de Ricardo desapareceu. Livros, papéis e manuscritos deixados em Catalão foram levados para um espaço térreo, úmido e salitrado. Cadernos com poemas e crônicas também desapareceram durante uma viagem de trem feita por sua mulher, Maria Carolina Leite, conhecida como Cota.
O material preservado inclui textos publicados em jornais da Cidade de Goiás, do Triângulo Mineiro e no próprio Goiás e Minas, onde Ricardo mantinha a coluna Arcádia Catalana. Em 1910, o Anuário Descritivo Histórico e Geográfico de Goiás publicou seu poema Convalescência e destacou a vida intelectual de Catalão, que passou a ser chamada de “Atenas de Goiás”.
Além da atuação política e literária, Ricardo era conhecido pela boemia, pelas serenatas, pelo violão e pela convivência com pessoas de diferentes classes. Criou o Clube Suan, com arroz, suã e pinga crua, em uma proposta de encontro que não dependia de luxo.
Ricardo morreu em Corumbaíba, em 1941. Em 1978, 37 anos depois, a Academia Catalana de Letras levou seus restos mortais para o Morrinho de São João, em Catalão, onde ele desejava ser sepultado, perto da cruz e da pequena capela associada à mulher que amava.
A alameda de Goiânia preserva seu nome, mas pouco informa sobre a história ligada a ele: Catalão, os conflitos políticos, a morte do pai, os poemas, a falência, Cota e o Morrinho de São João. A placa indica um endereço. A trajetória de Ricardo Paranhos mostra o que ficou escondido dentro desse nome.








