A participação do Centro-Oeste entre as maiores empresas brasileiras avançou, impulsionada pelo agronegócio, mas a concentração econômica no Sudeste e no Sul continua predominante. As duas regiões responderam, respectivamente, por 77% e 12% das receitas líquidas das mil maiores empresas do país.
Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para este ano, as previsões de mercado reunidas no relatório Focus, do Banco Central, indicam expansão de 1,98%. O cenário é de desaceleração, associado à taxa de juros elevada, às incertezas do período pré-eleitoral e à instabilidade geopolítica.
Receitas avançam no Centro-Oeste
Entre as mil maiores empresas, as companhias sediadas no Centro-Oeste tiveram a maior expansão de receitas líquidas em 2025, passando de R$ 260,9 bilhões para R$ 307,6 bilhões, alta de 17,8%. O Nordeste veio em seguida, com avanço de R$ 461,9 bilhões para R$ 514 bilhões, ou 11,2%.
No Sudeste, as receitas subiram de R$ 6 trilhões para R$ 6,4 trilhões, crescimento de 5%. O Sul ficou praticamente estável, de R$ 996,9 bilhões para R$ 998,5 bilhões. Já no Norte, houve queda de R$ 106,9 bilhões para R$ 91,1 bilhões, recuo de 14,8%.
A receita líquida das mil maiores empresas brasileiras avançou 7,8% e chegou a R$ 8,3 trilhões. Apenas Centro-Oeste e Nordeste cresceram acima dessa média. Na divisão por estados, Mato Grosso concentrou 28,3% das receitas do conjunto Norte-Centro-Oeste; a Bahia respondeu por 46% do Nordeste; São Paulo, por 62,5% do Sudeste; e o Paraná, por 44,7% do Sul.
O Centro-Oeste também registrou novo recorde na quantidade de empresas listadas no anuário. Ainda assim, sua participação passou de 3,3% para 3,7%, enquanto a do Nordeste subiu de 5,8% para 6,2%. No Norte, houve variação de 1,3% para 1,1%.
Diferença no número de empresas
O ranking reúne 656 empresas do Sudeste e 206 do Sul. O Nordeste aparece com 64, o Centro-Oeste com 60 e o Norte com 14. Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins não tiveram empresas entre as mil maiores.
A diferença também aparece na lista das melhores empresas em cada um dos 27 setores analisados. O Sudeste teve 19 companhias nessa classificação. O Nordeste contou com uma, a Suzano, da Bahia, no setor de papel e celulose. Norte e Centro-Oeste somaram duas: Inpasa Agroindustrial, de Mato Grosso, em bioenergia, e Valgroup, do Amazonas, em plásticos e borracha.
O Sul teve quatro empresas entre as melhores de seus setores: Copacol, do Paraná, no agronegócio; Lojas Renner, do Rio Grande do Sul, na indústria da moda; e Intelbras e WEG, de Santa Catarina, nos setores de eletroeletrônica e mecânica.
Para Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do FGV Ibre, regiões com PIBs menores tendem a crescer mais rapidamente. O Sudeste, por reunir uma economia diversificada e empresas grandes em diferentes setores, encontra mais dificuldade para alcançar expansões de dois dígitos.
Os dados regionais mais recentes do IBGE são de 2023, mas o FGV Ibre projetou o desempenho de 2025. A estimativa de crescimento para o Centro-Oeste é de 4,1%, acima do PIB nacional, enquanto a previsão para o Sul é de 2,3%.
Dependência do agronegócio
A expansão do Centro-Oeste nos últimos anos esteve ligada ao agronegócio. Em 2026, porém, a região tende a ter desempenho pior porque o setor perdeu força nos últimos meses. Na comparação entre primeiros trimestres e quartos trimestres do ano anterior, o agro cresceu 21,6% em 2023, 11,3% em 2024, 12,2% em 2025 e 2% em 2026, conforme as contas nacionais do IBGE.
Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, afirmou que problemas com safras e dificuldades de financiamento podem reduzir o desempenho do agro neste ano. Ela também destacou os efeitos sobre transporte, serviços e logística.
Trece avalia que uma economia menos concentrada e com atividades mais diversificadas seria positiva. “Esse movimento até tem acontecido, principalmente por causa do agro, mas ainda tem um ritmo muito lento”, disse. Para ela, a dependência de poucos setores aumenta a vulnerabilidade das regiões em períodos de crise.
Outro possível obstáculo está na reforma tributária, segundo Saulo Abouchedid, professor da FIA Business School. Ele afirmou que indústrias instaladas com base em incentivos fiscais estaduais podem ser afetadas porque a cobrança de impostos passará da origem para o destino do produto. A implementação será faseada e seus efeitos não devem ocorrer no curto prazo.
A diversificação também expõe o Sudeste aos efeitos da conjuntura macroeconômica. A taxa de juros em dois dígitos afeta praticamente todas as empresas, com exceção dos bancos. Para Juliana Trece, o parque industrial da região depende de investimentos em modernização e inovação, que ficam mais difíceis em um ambiente de juros altos.







