A aproximação de um El Niño com pico previsto entre outubro e dezembro aumenta a pressão para que empresas brasileiras reforcem medidas de prevenção e continuidade dos negócios. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima em 81% a chance de o fenômeno alcançar o nível mais alto da escala, em meio ao aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e da atmosfera pelas emissões de gases de efeito estufa.
Os efeitos climáticos extremos, porém, já afetam as empresas mesmo sem a atuação do fenômeno. As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e os ventos acima de 100 quilômetros por hora registrados em São Paulo e no Rio no fim de julho provocaram falta de energia e bloqueios em estradas. No caso das enchentes, também houve mortes, perdas de estoques e danos à infraestrutura.
O El Niño pode elevar, no futuro próximo, a possibilidade de enchentes no Sul, de secas no Norte e de chuvas irregulares no Centro-Oeste. O Insper Agro Global projetou uma safra recorde no cenário-base de 2026/2027, mas estimou que uma redução de 6% na soja brasileira faria a relação entre estoques e consumo mundiais cair de 28% para 25%, pressionando os preços.
Diagnóstico dá lugar à execução
Um levantamento da EY com 857 companhias de 50 países indica que 92% avaliam riscos físicos, mas apenas 44% colocaram medidas de adaptação em prática. O estudo calcula que o custo médio de não agir equivale a 15% da receita anual, quase o dobro dos 8% que as empresas planejavam investir.
Para Alessandra Fajardo, diretora-executiva técnica do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), as empresas precisam avançar do diagnóstico para a implementação. Entre os 82 relatórios analisados no último Reporting Matters, 75% já adotam a dupla materialidade, que considera tanto os efeitos da atividade empresarial sobre o meio ambiente quanto os impactos da mudança do clima sobre os negócios. “O desafio agora é transformar essa maturidade em planos de adaptação com metas, orçamento, responsáveis, indicadores e investimentos”, diz.
Mariana Nicolletti, coordenadora do programa Adapta do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), afirma que empresas de infraestrutura, energia, saneamento e transportes chegaram ao fórum realizado neste ano com planos elaborados e dúvidas sobre a execução. Em 2024, segundo ela, as discussões estavam concentradas na busca por dados e na elaboração de diagnósticos.
Nicolletti também aponta que a adaptação precisa ser incorporada por áreas como finanças, gestão de pessoas e gestão de riscos, e não ficar restrita à sustentabilidade. A falta de profissionais capacitados é outro obstáculo, o que faz do treinamento parte dos investimentos necessários.
Obras, produção rural e financiamento
Na indústria têxtil, empresas vêm substituindo a retirada de água dos rios por sistemas de reúso, movimento também observado na petroquímica. No setor de petróleo e gás, a concentração da infraestrutura no litoral levou a adaptação a ser tratada como gestão de ativos diante da elevação do nível do mar.
Davi Bomtempo, superintendente de meio ambiente e sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirma que essas obras passaram a integrar os orçamentos de investimento. “Adaptar a infraestrutura custa caro, mas lidar com os efeitos de um evento climático extremo depois é muito mais oneroso”, afirma.
No agronegócio, Nelson Ananias Filho, coordenador de sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), cita o zoneamento agrícola de risco climático, atualizado anualmente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. A ferramenta orienta o que plantar em cada região e em qual período. Também são usadas pastagens com raízes profundas, capazes de buscar água em camadas mais baixas durante a estiagem, além do cruzamento de animais adaptados ao calor.
O setor enfrenta ainda o custo das certificações exigidas por compradores externos, como países da União Europeia. Como a auditoria tem o mesmo preço para propriedades de diferentes tamanhos, produtores maiores conseguem distribuir esse gasto pela produção, enquanto os menores precisam arcar com ele diretamente. O produtor médio, segundo Ananias Filho, fica entre as políticas voltadas à agricultura familiar e a capacidade de manter assistência técnica própria.
O acesso a recursos é outro ponto da adaptação. O governo federal publicou a Estratégia Nacional de Adaptação e os 16 planos setoriais relacionados a ela. O documento registra que 84,5% dos municípios brasileiros foram atingidos por desastres na última década. Operado pelo BNDES, o Fundo Clima tem orçamento de R$ 27,5 bilhões neste ano; as aprovações para adaptação passaram de R$ 547 milhões em 2024 para R$ 2,4 bilhões em 2025.
Mesmo com a oferta de recursos, empresas relatam dificuldade para identificar o instrumento adequado a cada projeto, especialmente quando são necessárias garantias ou alavancagem de capital. Projetos com retorno de longo prazo também podem perder espaço nas decisões financeiras das companhias.
A adaptação avançou, mas ainda recebe menos peso que a mitigação, voltada à redução das emissões de gases de efeito estufa. Para Bomtempo, a relação entre investimento e desempenho financeiro mudou a discussão: quando o tema se conecta à competitividade, passa a ser tratado também como questão econômica. O El Niño deverá colocar à prova a velocidade de execução dos planos empresariais.







