A transferência de fábricas para países com tarifas americanas menores não entregou, em muitos casos, a economia esperada. Um ano depois de diversificarem a produção, algumas empresas estão reativando fornecedores e operações na China diante de dificuldades para encontrar equipamentos, mão de obra qualificada, energia confiável e redes industriais equivalentes.
A mudança ocorre enquanto fabricantes ainda mantêm investimentos no Sudeste Asiático e aguardam sinais sobre uma possível reunião entre Donald Trump e Xi Jinping neste mês. As empresas também acompanham a proposta de reduzir barreiras para alguns produtos não sensíveis.
O custo da mudança
Jin Chaofeng, exportador de móveis para áreas externas em Hangzhou, fechou uma oficina em Ho Chi Minh aberta em 2024 e transferiu a produção de volta para a China neste ano. No Vietnã, ele teve dificuldade para obter equipamentos e precisou levar da China itens básicos, como parafusos e moldes para porta-copos.
A diferença financeira que havia motivado a expansão no exterior deixou de compensar. “Quando considerei tudo, o custo total não era muito diferente, então não fazia sentido”, afirmou Chaofeng.
A estratégia de “China mais um” buscava manter parte das operações em outros países para reduzir a exposição às tarifas dos Estados Unidos. Em julho, estimativas da Economist Intelligence Unit apontavam uma tarifa efetiva americana de cerca de 20% para a China, contra 6,1% para o Vietnã, 13,4% para a Indonésia e 4,5% para a Tailândia. A vantagem chinesa diminuiu depois que Washington ampliou as tarifas para mais países, segundo a EIU.
Fornecedores voltam a ganhar espaço
A Dawang Metals, fundição de metais sediada em Dandong, no nordeste da China, chegou a avaliar a transferência de uma parte da produção, mas desistiu. A empresa perdeu pedidos quando um cliente americano de máquinas agrícolas levou parte das compras para a Índia. Depois de enfrentar problemas no país, o cliente voltou a fazer novos pedidos, disse Heather Kuang, vice-presidente da companhia.
“A vantagem da China em termos de cadeia de suprimentos ainda é grande demais, e é difícil reproduzir a produção doméstica em outros lugares”, afirmou Kuang.
Ainda não há dados concretos sobre o volume de fornecimento que está retornando à China. Compradores que deslocaram a produção, porém, relatam que mantêm ou retomam fornecedores chineses porque as fábricas estrangeiras enfrentam dificuldades para igualar a qualificação dos trabalhadores, a rede de fornecedores e o abastecimento de energia.
A Target transferiu parte dos pedidos novamente para fornecedores chineses, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto. Elas citaram interrupções na cadeia de suprimentos e limitações de produção, mas não informaram o valor nem a duração das encomendas. A Shein também reduziu algumas operações no Vietnã, conforme pessoas familiarizadas com suas atividades no país. Target e Shein não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
Energia pesa nas decisões
O acesso à eletricidade passou a ter peso semelhante ao preço para algumas empresas. A crise no Oriente Médio testou a confiabilidade energética de bases industriais, enquanto os custos de insumos plásticos subiram 15% em abril com a alta do petróleo.
Stanislaw Krykun, CEO da polonesa DST Pack, disse que a empresa atravessou esse período com um parceiro industrial chinês de seis anos. Uma fábrica em Shenzhen responde por 80% da produção, enquanto unidades de reserva nos Estados Unidos e na Europa fornecem 10% cada. Essas alternativas custam de duas a três vezes mais por unidade.
Krykun descartou transferir a produção para o Sudeste Asiático após acompanhar as dificuldades de um parceiro no Vietnã. Guan Baokui, advogado de Qingdao que assessora fabricantes, afirmou que Vietnã e Indonésia enfrentam fornecimento de eletricidade “instável e descontínuo”.
Diversificação continua
A reversão não é generalizada. A Índia, a Indonésia e o Vietnã continuam atraindo investimentos de fabricantes de eletrônicos, automóveis e outros setores. O Vietnã permanece entre os principais destinos da diversificação e recebe bilhões de dólares em investimentos estrangeiros.
Uma empresa que vende armários elétricos e máquinas de venda automática mantém cerca de um oitavo da capacidade total no Vietnã como proteção, disse Yu Yangxian. A companhia pode ampliar novamente as operações no país se as tarifas dispararem.
Em Ningbo, Summer Hu, agente de vendas de produtos para presentes e esportes ao ar livre, disse que os pedidos dos Estados Unidos não aumentaram. Exportadores também não esperam que a cúpula entre Trump e Xi resolva todas as dificuldades. Kuang afirmou que as empresas precisam buscar mercados de exportação para continuar operando.







