SANTA RITA DO SAPUCAÍ — O HackTown foi pensado para estimular escolhas, conexões e uma visão coletiva de felicidade, segundo Marcos David, cofundador e um dos idealizadores do festival. Em conversa com Sílvia Castro, ele explicou que a tecnologia é apenas uma parte de uma estratégia mais ampla para o desenvolvimento local.
A edição de 2026 foi realizada de 3 a 7 de setembro, no Coreto da Praça Matriz de Santa Rita do Sapucaí, em frente ao santuário de Santa Rita de Cássia. A programação foi organizada em 21 trilhas de conteúdo, com temas como ancestralidade, saúde mental, meditação e tecnologia.
Felicidade como objetivo coletivo
Marcos David relacionou o festival ao movimento Cidade Criativa, Cidade Feliz, criado em 2013 para diversificar e complexificar a economia local sem abandonar valores sociais. A proposta, segundo ele, é reunir recursos tecnológicos, criativos e econômicos em favor da felicidade.
O grupo estudou pesquisas de psicologia para discutir o conceito. De acordo com Marcos David, cerca de 85% das publicações científicas da área tratam do cuidado com questões da mente, como a depressão; 10% abordam a busca por vocação; e apenas 5% se dedicam diretamente à felicidade.
A partir desse cenário, o movimento passou a provocar a população a buscar uma cidade um pouco mais feliz, sem a pretensão de ser a mais feliz do mundo. “Nós estamos nos posicionando como a cidade que tá mais buscando ser um pouquinho mais feliz”, afirmou Marcos David.
Na visão apresentada por ele, o desenvolvimento local precisa ser econômico, cultural e social. A psicologia positiva também aparece como referência para defender que a felicidade não pode ser tratada apenas como uma experiência individual.
Tecnologia, arte e autonomia
A presença de assuntos variados no HackTown é intencional. Marcos David recorreu à origem grega da palavra tecnologia, associada a “tecnê”, que significa arte, para aproximar artistas e tecnólogos. Na avaliação dele, os dois grupos ajudam a ampliar limites impostos pelo corpo e pela sociedade.
Ele citou Sinhá Moreira como exemplo de uma pessoa que não se concentrou apenas no que faltava à cidade. Segundo Marcos David, ela pensava no que faltava ao mundo e em como Santa Rita do Sapucaí poderia contribuir. Essa postura, para ele, está ligada à autoestima e à autonomia necessárias para criar soluções, sem deixar essa responsabilidade apenas nas mãos de governos e empresas.
Escolhas em meio a muitas possibilidades
As 21 trilhas também foram apresentadas como uma forma de aproximar pessoas com interesses semelhantes e, ao mesmo tempo, expor o público a novos assuntos. O volume de atividades simultâneas levaria os participantes a exercitar a capacidade de escolher.
Marcos David relacionou essa escolha ao significado de inteligência. A partir de uma pesquisa pessoal sobre a origem da palavra, motivada por uma palestra de Lúcia Helena Galvão Maya, professora de filosofia, escritora e palestrante da organização Nova Acrópole do Brasil, ele afirmou que o termo estaria ligado a saber escolher, e não somente a acumular informações.
Para explicar a ideia, mencionou a associação da filosofia egípcia entre inteligência e o deus Thoth, representado com o bico fino de uma íbis. A imagem simbolizaria a capacidade de selecionar um ponto essencial entre muitas possibilidades.
A vida como centro
Ao falar sobre o futuro do HackTown, Marcos David disse esperar que os participantes percebam que nada é feito sozinho e tenham uma experiência de reconexão com a vida. Ele descreveu mudanças históricas nos conceitos colocados no centro das sociedades: primeiro Deus; depois, após o Iluminismo e a Revolução Francesa, o homem; e, mais recentemente, a tecnologia.
Ele também citou Wander Wilson Chaves, ex-prefeito de Santa Rita do Sapucaí, atual diretor do Inatel e fundador do movimento Cidade Criativa, Cidade Feliz no município. Para Chaves, conforme relatado por Marcos David, a única meta possível de uma cidade é a felicidade coletiva.
Computação quântica e 6G, temas presentes no festival, foram descritos como partes de um conjunto maior. “O centro é a vida. Se nós não estivermos colocando todas essas coisas em prol do servir ao todo, a gente tá criando uma distopia”, disse Marcos David.







