O lucro líquido agregado das mil maiores empresas do Brasil cresceu 25,8% em 2025, passando de R$ 337,5 bilhões para R$ 424,3 bilhões. A receita líquida do grupo avançou 7,8%, de R$ 7,6 trilhões para R$ 8,3 trilhões. Apesar da melhora, a recuperação ficou concentrada na redução das despesas financeiras, enquanto a operação apresentou perda de força.
A análise foi feita com base nos resultados de 2024 e 2025. A parcela de empresas com lucro subiu de 81% para 84%, mas o lucro bruto recuou 0,6% em termos reais, e o Ebitda caiu 0,12% na mesma comparação. A geração de caixa operacional ficou estável em termos reais. As margens bruta e Ebitda também diminuíram, para 23% e 17%.
Dívidas ajudaram a recompor o resultado
Entre 845 empresas comparadas nos dois anos, 375 reduziram de forma relevante os gastos com a gestão de dívidas. No conjunto das mil maiores, as despesas financeiras caíram 34% em termos reais, para R$ 303,7 bilhões. A economia chegou a R$ 140 bilhões, acima dos R$ 87 bilhões adicionados ao lucro líquido.
Cláudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV, afirmou que a recuperação não veio da operação. A maioria das empresas teve aumento dos gastos financeiros, em um cenário de Selic elevada. Cerca de 70% das companhias terminaram 2025 com resultado financeiro líquido negativo.
A Selic encerrou 2025 em 15% ao ano. O endividamento oneroso agregado das empresas equivalia a 2,7 vezes o Ebitda, e cerca de um terço delas tinha dívida acima de três vezes o próprio Ebitda.
Receita avançou em alimentos, energia e varejo
O complexo agroalimentar respondeu por mais de um terço da receita incremental. Alimentos e bebidas contribuíram com R$ 120 bilhões para o crescimento, enquanto o agronegócio adicionou R$ 88 bilhões. JBS, MBRF e Cargill ficaram entre as dez maiores empresas do ranking.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos indicam que o setor faturou R$ 1,3 trilhão em 2025, equivalente a 11% do PIB. O mercado interno representou cerca de R$ 1 trilhão, e as exportações somaram aproximadamente R$ 373 bilhões.
A Petrobras registrou receita líquida de R$ 498 bilhões, alta de 1,4% sobre 2024. A produção nacional de petróleo e gás alcançou 4,9 milhões de barris de óleo equivalente por dia, crescimento de 13% em relação ao ano anterior. No ranking de receita, Petrobras, JBS, Raízen, Vale e Vibra lideraram, com R$ 498 bilhões, R$ 481 bilhões, R$ 226 bilhões, R$ 214 bilhões e R$ 189 bilhões, respectivamente.
A energia elétrica cresceu 14% e acrescentou R$ 69 bilhões à receita das empresas analisadas. O varejo recebeu R$ 66 bilhões adicionais, sustentado pelo consumo doméstico e pela massa salarial. Já o comércio atacadista faturou R$ 617 bilhões em 2025, ante R$ 526 bilhões em 2024, alta nominal de 17%.
Lucro concentrado e alerta para os próximos anos
O setor de petróleo e gás respondeu por R$ 102 bilhões do lucro de 2025. Energia elétrica ficou com R$ 51 bilhões, e alimentos e bebidas, com R$ 42 bilhões. A Petrobras foi a líder isolada em lucro, com resultado superior a sete vezes o da segunda colocada, a Ambev.
Para Mateus Bueno, gerente-executivo de dados da Serasa Experian, tamanho e rentabilidade continuam sendo características diferentes. Empresas líderes em receita quase não se sobrepõem às companhias com maiores margens, como Eldorado, B3 e CBMM.
Entre as maiores altas, Yoshinaga destacou Kinross, com crescimento de 68%, Anglogold Ashanti, com 54%, Inpasa, com 67%, e Minerva, com 61%. A avaliação é que receita dolarizada e diversificação geográfica ajudaram empresas com custos em real.
Para 2026 e 2027, as recomendações citadas incluem atenção à qualidade do lucro, gestão de dívidas, geração de caixa própria e reconstrução da margem bruta. Em agosto, o mercado projetava Selic em torno de 13,75% ao fim de 2026 e próxima de 12% em 2027. A previsão para o PIB era de crescimento de cerca de 2% em 2026 e aproximadamente 1,5% em 2027.
Yoshinaga também defendeu a revisão de produtos e projetos para identificar estruturas que destroem valor. As despesas operacionais das mil maiores caíram R$ 29 bilhões, redução de 6,5% em termos reais, enquanto o lucro da atividade cresceu 8,7% reais. Para a pesquisadora, a prioridade deve ser melhorar a margem e reduzir a alavancagem, em vez de buscar crescimento baseado apenas em financiamento.







