Menos de 10% das empresas que atuam hoje no mercado brasileiro de criptoativos devem pedir autorização ao Banco Central (BC) para continuar operando. Estimativas do setor indicam que apenas dez companhias conseguiriam obter a licença de Prestadora de Serviços de Ativos Digitais (PSAVs).
O mercado reúne entre 150 e 200 empresas. Desse total, cerca de 20 a 25 teriam estrutura, capital ou interesse para iniciar o processo de autorização. As companhias que já operavam antes da entrada em vigor das novas regras, em fevereiro, precisam protocolar a primeira etapa do pedido até 30 de outubro. Quem não fizer isso terá de encerrar as atividades em 30 dias.
Encerramentos e transferência de clientes
Empresas brasileiras e estrangeiras vêm anunciando o fim de operações, incorporações e migrações de clientes. A Bitnuvem encerrou as atividades neste ano e citou o aumento dos custos operacionais e das exigências regulatórias entre os motivos. Em junho, a NovaDAX anunciou o fim da operação e firmou um acordo para facilitar a transferência de clientes para a Foxbit.
A Digitra.com também encerrou o atendimento ao varejo e direcionou clientes para a Foxbit. A Mynt, plataforma de criptoativos do BTG Pactual, foi incorporada às plataformas do banco. Já a Bitso anunciou uma parceria com o Mercado Bitcoin (MB): os clientes pessoa física no Brasil passaram a investir pelo MB, enquanto a empresa concentrou sua atuação local em infraestrutura e serviços para institucionais.
A Coinext encerrou a operação de varejo depois de quase dez anos e deixou de oferecer negociação e custódia. A Coinext Asset, voltada à gestão de clientes institucionais, continua funcionando. A empresa afirmou que analisou as exigências, conversou com potenciais parceiros e avaliou alternativas, mas não encontrou uma opção viável.
Nem todas as empresas atribuíram diretamente esses movimentos às regras do BC. O mercado, porém, espera novas transferências de carteiras e anúncios de encerramento. A tendência é de concentração de clientes, infraestrutura e operações em menos participantes.
Capital e novas exigências
Instituições financeiras que já têm licença bancária do BC não precisam pedir autorização para atuar no segmento. Gestoras de fundos também ficam fora desse pedido, pois seguem o modelo regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O capital necessário é um dos principais pontos de pressão. Na Consulta Pública 109/2024, o BC havia proposto capital social mínimo de R$ 1 milhão para intermediárias de ativos virtuais, R$ 2 milhões para custodiantes e R$ 3 milhões para corretoras que acumulam as duas funções. Na regulamentação definitiva, anunciada em novembro de 2025, os valores passaram a variar de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, conforme as atividades e os riscos assumidos.
As regras também exigem governança, controles internos, gestão de riscos, segurança, prevenção à lavagem de dinheiro, certificação técnica, auditoria e envio periódico de informações ao regulador. Para Isabel Sica Longhi, diretora de regulação da Ripple, a edição acelerada das normas dificultou a adaptação das empresas. “O maior problema foi esse sequenciamento, que veio tudo muito junto e rápido”, afirmou.
Executivos do setor também associam a postura mais rígida do BC a problemas observados em fintechs, como fraudes, ataques cibernéticos, uso de contas por terceiros e estruturas de controle consideradas frágeis.







