A relação entre política, religião e violência é o centro de “A Professora de Francês”, novo longa de Ricardo Alves Jr. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián e disputa o prêmio de Melhor Filme Latino-americano na seção Horizontes Latinos.
A trama acompanha Graça, interpretada por Grace Passô. Universitária, professora de francês e lésbica, ela retorna à casa onde cresceu, em um bairro de Belo Horizonte, para cuidar do pai doente. A recepção dos vizinhos parece acolhedora, mas o grupo integra uma seita. Aos poucos, a convivência muda de tom e passa a submeter a personagem a uma situação de controle e violência.
Terror próximo
Ricardo Alves Jr. define a obra como um filme de terror social. Para o diretor, a ameaça não está em uma força sobrenatural ou distante, mas pode surgir de alguém próximo, inclusive de quem se oferece para ajudar. “O mal não é sobrenatural nem um mal distante”, afirma.
Os integrantes da seita defendem que Graça volte ao papel que consideram destinado às mulheres: o de mãe. A crítica também alcança a mistura entre política, Estado e religião, apresentada pelo cineasta como uma característica da extrema direita brasileira. Segundo Ricardo, o alvo não são as crenças religiosas, mas o uso da fé como instrumento político de poder.
Relação com o Brasil
O projeto começou a ser desenvolvido em 2016, no período do impeachment de Dilma Rousseff, descrito pelo diretor como um golpe parlamentar. A partir daquele momento, ele identifica o fortalecimento de grupos reacionários no país. O filme também dialoga com o período da presidência de Jair Bolsonaro, entre 2019-2022.
Para o cineasta, a obra procura refletir sobre como sobreviver à perseguição de artistas, aos ataques aos direitos da população indígena e às ameaças aos direitos humanos. Ele espera, porém, que um dia o longa seja visto apenas como ficção e deixe de ser associado à realidade.
O elenco inclui ainda a atriz e cantora francesa Jehnny Beth, que interpreta Clara, noiva de Graça. O diretor escolheu a artista por sua experiência como performer e por sua força punk.
“A Professora de Francês” concorre com produções da Argentina, do Brasil, do Chile, da Colômbia, do México e do Paraguai. A seleção reúne onze filmes. O festival termina no sábado (26), quando será realizada a cerimônia de entrega dos prêmios. Jair Bolsonaro está preso desde 2025, após ser condenado por uma tentativa de golpe de Estado depois de perder a reeleição para Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.








